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Há
alguns meses pudemos ver importantes estilistas, de diferentes grifes
da moda, seguirem em direção ao “gigante africano”
com a intenção de buscar inspiração para
as coleções que despontam agora nas vitrines mais elegantes.
África,
um país gigante, enigmático, complexo e extremamente
místico. Onde a riqueza de um enorme diamante como o Promessa
do Lesoto de 603 quilates - o 15° maior da história, vendido
em 2006 pela South African Diamond Corporation - compete com a pobreza
de adultos e crianças que morrem de fome à vista do
mundo.
Problemas
sociais à parte, a verdade é que a riqueza de sua cultura
é incontestável.
E
já que as roupas e acessórios embarcaram nessa “viagem”,
as jóias não podiam ficar para trás. A influência
que chega é forte e bela. Vale a pena conhecermos um pouco
mais a respeito dos adornos e jóias africanas, assim como suas
crenças e superstições.
Quando
falamos em África muitas imagens vêm à mente.
Animais, cores fortes, calor. Mas os orixás, as mães
de santo, o misticismo, não podem faltar.
Nas
religiões de origem africana os sentidos convivem em harmonia
com o sagrado. Movimentos, gestos, formas, cores, sabores, odores
e indumentária são componentes fundamentais nos diversos
rituais. Não há distanciamento entre o divino e o humano
como em diversas outras religiões.
As
jóias e objetos de adorno estão fortemente presentes
na cultura africana.
Colares
- Vários são confeccionados em metal. Com elos, tiras
ou outros formatos. Eles são chamados de “guias”
e mais usados entre os adeptos da umbanda. Levam também um
símbolo que pode ser uma estrela, um machado, santos populares
entre outros. Alguns deles são ainda adornados de contas vermelhas,
pretas e brancas. São objetos de proteção para
o corpo.
Histórias
antigas contam que o correntão de elos de ouro usado pelas
escravas, também chamado de correntão cachoeirano, era
fruto de muitas noites de amor com os senhores portugueses. Conta-se
que enfeitiçavam os homens para que lhes dessem suas alianças
em troca dos favores sexuais. Cada elo era uma aliança portuguesa.
Fios
de Contas
Conta – estrela principal das peças de adorno africanas.
É a designação de tudo o que passe por um fio
com o objetivo de envolver o corpo.
Os
famosos “fios de contas” são muito utilizados.
Seu sentido é fundamentalmente religioso. São contas
enfiadas, originalmente, em palha-da-costa. Atualmente são
usados os fios de náilon, cordonê ou outros.
Seu
colorido é fascinante. Podem representar uma hierarquia; um
rito de passagem; identificar deuses, atividade desenvolvida ou mesmo
nações. Podem ser encontradas em diversos materiais,
mais e menos nobres, de acordo com a situação financeira
de quem o usa mas a mais famosa e conhecida é sem dúvida
a miçanga. Essa conta também é usada em outros
trabalhos como o tear, que apresenta desenhos coloridos muito atraentes
e significativos.
O
fio de contas marca um compromisso cultural e ético entre o
ser humano e o divino. É canal de comunicação
entre o homem e seu deus tutelar. Também chamados de “colares
litúrgicos”.
O
relacionamento estabelecido com o mundo “mágico”
só é possível enquanto o indivíduo integra
uma nação, uma tribo. Os fios de conta também
se prestam a essa finalidade à medida em que associam esse
indivíduo a um grupo, a um orixá.
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O fio simples e único é usado normalmente por iniciantes
ou no dia-a-dia, por ser mais fácil de levar. Podem ser vistos
também em pára-brisas de carros, nos pulsos, em um objeto
da casa etc.
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Fios múltiplos, suas montagens e cores simbolizam deuses específicos.
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Xubetas ou Mocãs: fios de palha-da-costa ou buriti trançados
com miçangas e búzios.
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Rungeve: Feito de miçangas marrons, corais e seguis (um tipo
de conta).
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Diloguns: fios múltiplos. Conjunto de 7, 14 e 21. São
unidos por uma firma (conta cilíndrica).
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Brajá ou Ibajá: longos fios montados de dois em dois,
em pares opostos. Podem ser usados a tiracolo e cruzando o peito e
as costas. É a simbologia da inter-relação do
direito com esquerdo, masculino e feminino, passado e presente. Quem
usa esse tipo de colar é um descendente dessa “união”.
É
a cor é um dos mais importantes elementos a “identificar”
um fio de contas.
Não
é qualquer pessoa que pode montar o fio de contas, ele(a) precisa
ter domínio sobre toda a simbologia, conhecê-la profundamente
e, principalmente, ser iniciado(a) durante um período especial
chamado reclusão do roncó, destinado à feitura
do santo.
Após
o ato da montagem dos fios eles passam por rituais próprios
para que sejam sacralizados. As
contas devem ser imersas numa bacia nova com água. Folhas consagradas
ao santo específico são trituradas com as mãos.
Em seguida as contas são lavadas com sabão da costa.
As contas estão purificadas. Cabe ao dono(a) conservá-las
em uma vasilha de barro quando não estiverem no corpo. De
tempos em tempos é necessário purificar novamente as
contas.
Além
das contas, muitas vezes podem ser vistas outras peças como
a figa, o oxê (machado de cume duplo), dente, peixe, moeda,
búzio, patuá, ofá (arco e flecha), esporão,
pomba do Divino Espírito Santo entre outros.
- Cor:
A simbologia das cores está ligada à história
e mitos dos orixás assim como aos seus domínios.
Cores
muito usadas são o vermelho, preto e branco. A facilidade na
obtenção de pigmentos naturais nessas cores estimulou
seu uso, seja em pinturas corporais, em tecidos ou mesmo nos objetos
de adorno. Além disso têm forte ligação
com o homem. O vermelho está relacionado ao sangue, ao fogo,
conseqüentemente à luta, à força. Branco
e preto são dia e noite, homem e mulher, vida e morte. O branco
também pode ser visto como representação da ancestralidade
e o preto como elemento germinal da terra. O
segui, conta azul de forte significado africano, antigamente só
era usada por reis. Acreditava-se serem excrementos do Vodum Dan Aydo
Wédo.
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Formato:
Pode variar muito. As mais conhecidas são as redondas, as miçangas,
que variam em tamanho. Há também as cilíndricas
e elípticas além das irregulares.
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Material:
Os mais valorizados são os naturais, “verdadeiros”,
no entanto a situação econômica obriga o uso de
materiais alternativos e sintéticos. Eles são permitidos
nos cultos pois sua principal função aí, a de
simbolizar o divino, está devidamente adequado visto que as
cores são rigorosamente obedecidas.
Podemos ver o uso de vidro, massas, búzios, metais, marfim,
chifre, madeira, cerâmica, coral entre outros. Mesmo os materiais
reciclados estão ganhando espaço no Candomblé.
Materiais
nobres, como as bolas de filigranas de origem luso-muçulmanas,
são patrimônio das africanas destinado a seus descendentes
e amigos queridos. A impressão é de que não apenas
o valor financeiro é levado em conta, mas também a crença
numa “energia” que fica nas peças e que possa ser
“distribuída”.
Bastante
conhecidas são as contas com que são feitos os laguidibás,
de chifre ou casca de coco, sempre na cor preta.
A
Vida pulsa em cada pedacinho da África. Energia pura, simples,
das entranhas da terra. É essa a proposta para a nova estação
que chega, também nas jóias. Que tal experimentar?
Bibliografia
Jóias
de Axé - A A Joalheria Afro-brasileira
Raul Lody - Editora Bertrand Brasil
Dicionário
do Folclore Brasileiro
Luís da Câmara Cascudo - Editora Global
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