Atendendo
à solicitação de um leitor, neste mês
discorreremos brevemente sobre alguns famosos diamantes brasileiros,
lembrando que a informação disponível sobre
o tema é bastante controversa, entre outros motivos porque
apenas parte dos grandes diamantes teve sua existência comprovada
e pública, além do fato de que era comum a relapidação
de espécimes famosos ao mudarem de mãos, quer fosse
para imprimir a marca do novo dono ou para evitar que fossem reconhecidos.
De modo geral,
os diamantes que se tornam célebres têm peso superior
a 50 quilates, são aproximadamente incolores ou de cor
de fantasia e possuem algum atrativo adicional, como seu tamanho,
importância histórica, singularidade, lapidação
e/ou lendas que o cercam.
Como a Índia
foi a única fonte importante de diamantes desde o quarto
século antes de Cristo até a sua descoberta no Brasil,
de lá procediam quase todos os exemplares de valor histórico.
Apesar disto, especula-se que um ou outro famoso diamante de origem
supostamente indiana possa ter sido realmente encontrado no Brasil.
Apesar da
enorme produção proveniente da região de
Diamantina ter sido a responsável pela primazia do nosso
país no fornecimento mundial durante um século e
meio e do fato de que diversos dos maiores e melhores diamantes
ali extraídos terem sido inseridos no acervo de jóias
da coroa portuguesa, a maior parte dos grandes exemplares brasileiros
foi descoberta mais tarde, no Triângulo Mineiro, principalmente
nos municípios de Coromandel, Estrela do Sul, Tiros, Patos
de Minas, Monte Carmelo, Abadia dos Dourados e Romaria.
O primeiro
grande diamante descoberto nesta região a receber nome
e tornar-se público foi o denominado Bragança ou
Regente de Portugal. Segundo o inglês John Mawe, em seu
relato de viagem ao Brasil, o exemplar pesaria 144 quilates e
teria sido encontrado no longínquo ano de 1798, no leito
do rio Abaeté. De acordo com o mesmo autor, a pedra foi
requisitada pela Coroa Portuguesa, como eram todas que pesassem
mais de 20 quilates, e Dom João VI o usava em ocasiões
especiais. É um espécime controverso e seu atual
paradeiro é desconhecido, embora haja menção
a um diamante com este nome entre as jóias da coroa sueca.
Outro célebre
diamante brasileiro é o Estrela do Sul, que possuía
261,38 quilates em estado bruto. Ele foi descoberto no ano de
1853, em um garimpo no Rio Bagagem, Triângulo Mineiro, por
uma escrava, que mais tarde foi alforriada e recebeu uma pensão
vitalícia. A pedra foi assim nomeada pelos irmãos
franceses que a adquiriram, ocasionando a mudança do nome
da localidade de Bagagem para a atual Estrela do Sul. A lapidação
desta gema, realizada em 1857 pelo Sr. Voorzanger, de Amsterdã,
durou 3 meses, resultando em um exemplar de 128,48 quilates e
forma de almofada.
O Estrela
do Sul foi adquirido em 1867 por Khande Rao, soberano do reino
indiano de Baroda, por aproximadamente US$400 mil. Ele foi o primeiro
diamante brasileiro a obter notoriedade internacional e, durante
mais de um século, o maior descoberto por uma mulher, até
que a Sra. Ernestine Ramaboa, de Lesotho, encontrou um espécime
de 601,26 quilates, em 1967. O Estrela do Sul mudou novamente
de mãos em 2001, sendo adquirido por compradores que preferiram
permanecer anônimos. Em dezembro do mesmo ano, foi submetido
por eles à graduação no Laboratório
Gemológico Gubelin, da Suiça, que estabeleceu um
grau de pureza VS2 e descreveu sua cor como marrom rosáceo
“fancy light”.
Em 1857, portanto
apenas quatro anos após a descoberta do Estrela do Sul,
outro famoso exemplar, pesando 120,58 ct, foi encontrado no mesmo
Rio Bagagem. Denominado Dresden Inglês, Dresden Branco ou
E. H. Dresden, em homenagem ao agente inglês que o adquiriu
no Rio de Janeiro e o levou a talhar no atelier de Coster, em
Amsterdã, foi assim designado para diferenciá-lo
do Dresden, o mais famoso diamante verde jamais encontrado, de
procedência desconhecida. Conhecido por seus elevados graus
de pureza e cor, o Dresden Inglês foi lapidado em uma única
pedra com forma de gota, pesando 78,53 ct, e supõe-se que
esteja de posse da família real de Baroda.
Ao que consta,
em 1859, no mesmo Rio Bagagem, teria sido encontrado um diamante
de 250 quilates, denominado Estrela do Egito e, em 1867, um exuberante
espécime de 105,50 ct, sem nome, no garimpo de Água
Suja, município de Romaria.
Se levarmos
em consideração os diamantes de qualidade não
gemológica, deveríamos incluir na relação
dos maiores alguns carbonados, isto é, agregados criptocristalinos
de cor usualmente preta, que consistem de uma mescla de diamante
grafitizado e carbono amorfo, caracterizados pela ausência
de clivagem e alta resistência. O maior deles foi descoberto
no ano de 1842, na Chapada Diamantina, parte central do estado
da Bahia, célebre pela ocorrência deste tipo de material.
A pedra recebeu o nome de Carbonado Sérgio e pesava 3.167
quilates, portanto superior ao peso do Cullinan (3.106 ct), o
maior diamante bruto já encontrado.
Fontes:
Barbosa, O.: O Diamante no Brasil: Histórico, Ocorrência,
Prospecção e Lavra
Bruton, E.: Diamonds
Cassedanne, J.: Diamonds in Brazil
Del Rey, M.: Como Comprar e Vender Diamantes
Garibaldi, E.: Ocorrências Gemológicas no Estado
de Minas Gerais
Harlow, G. E.: The Nature of Diamonds
Reis, E: Os Grandes Diamantes Brasileiros
Smith, C. P. & Bosshart, G.: Star Of The South: A Historic
128 ct Diamond (Gems & Gemology, Vol. 38, págs 54 a
64)
Webster, R.: Gems. Their Sources, Descriptions and Identification
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