No
final do século XIX, um evento histórico relacionado
ao mundo do diamante alterou drasticamente o panorama vigente.
A descoberta das primeiras pedras na África do Sul, ocorrida
em 1866, foi um divisor de águas neste cenário,
pois o Brasil, que até então detinha a primazia
da produção, foi suplantado após aproximadamente
150 anos de liderança.
Os anos seguintes
ao achado africano marcaram um período de franco declínio
da produção brasileira, que não deveu-se
ao esgotamento de suas reservas, mas sim aos baixos teores dos
depósitos, que eram intensamente lavrados com base em trabalho
escravo, abolido no final do século XIX. Quando os primeiros
diamantes provenientes da África do Sul alcançaram
a Europa, por volta de 1870, Lisboa, outrora o principal centro
de comercialização de mercadoria bruta, também
já perdera importância, se comparada aos centros
de lapidação de Amsterdã e Antuérpia.
Após
o fim da denominada era brasileira na história do diamante,
a região de Diamantina, em Minas Gerais, continuou sendo
a principal fonte deste mineral no país, embora sua produção
tenha se mantido em níveis relativamente baixos até
o princípio dos anos 1960 quando, além das atividades
dos garimpeiros autônomos e dos garimpos semi-mecanizados,
empresas de mineração iniciaram a exploração
das aluviões diamantíferas, utilizando o método
de dragagem em larga escala, ao longo dos leitos do Rio Jequitinhonha
e de seus afluentes. Esta região manteve-se hegemônica
no país até meados dos anos 80 mas, atualmente,
seus depósitos encontram-se relativamente próximos
da exaustão.
Por outro
lado, o Triângulo Mineiro alcançou projeção
nacional, devido a sua produção significativa e
por ser a região de ocorrência de grande parte dos
maiores diamantes brasileiros encontrados na primeira metade do
século XX, sobretudo nos domínios hidrográficos
do rio Abaeté, nos municípios de Coromandel, Estrela
do Sul, Tiros, Patos de Minas, Monte Carmelo, Abadia dos Dourados
e Romaria. Atualmente, está em curso um projeto de identificação
de kimberlitos nas regiões oeste e central do estado de
Minas Gerais.
A produção
de diamantes matogrossense ressurgiu no início do século
XX com as descobertas ocorridas nas regiões de Poxoréo,
que remontam à década de 20, e Nortelândia,
Alto Paraguai e Arenápolis, entre o final da década
de 30 e início dos anos 40. As atividades de garimpagem
em aluviões dessas regiões continuaram, intermitentemente,
durante as décadas seguintes e intensificaram-se a partir
dos anos 70, no noroeste do estado, em Juína, e no sudoeste,
nos municípios de Tesouro, Guiratinga, Alto Garças,
Barra do Garças e Poxoréo, sendo, neste último,
criada uma reserva garimpeira, em 1979. Nesta mesma década,
a chegada de empresas de mineração, que passaram
a prospectar diamantes sistematicamente na região, contribuíram
para que a produção alcançasse maior relevância
nos últimos 35 anos, convertendo Poxoréo em um importante
centro produtor nacional.
Em Rondônia,
junto à divisa com o estado do Mato Grosso, a reserva indígena
Roosevelt apresenta grande potencial diamantífero. Como
no Brasil as atividades de mineração em terras indígenas
são ilegais, há uma expectativa por parte da etnia
Cinta-Larga, das mineradoras e dos garimpeiros quanto a sua regulamentação,
após conflitos ocorridos em 2004. Atualmente, há
diversos kimberlitos no estado sendo pesquisados com vistas à
implantação de empreendimentos de mineração,
principalmente na promissora região de Pimenta Bueno, no
leste do estado.
A produção
de diamantes na região da Chapada Diamantina, no centro
do estado da Bahia, teve seu esplendor na segunda metade do século
XIX, quando as ocorrências de Lençóis, Andaraí,
Palmeiras e Mucugê, na bacia do rio Paraguaçu, foram
intensamente lavradas. As atividades de garimpagem diminuíram
gradativamente no final do século XIX, até quase
cessarem ao término da segunda década do século
passado. A partir dos anos 80, várias garimpos entraram
em atividade nos leitos dos rios situados no Parque Nacional da
Chapada Diamantina e próximos dele. Por uma ação
conjunta de entidades ligadas à mineração
e ao meio ambiente, estes garimpos foram fechados em 1996.
Os diamantes
foram descobertos em Roraima no início do século
XX, inicialmente na região do rio Maú e, mais tarde,
nos leitos dos rios Cotingo, Quinô e Suapí. Na década
de 30, deu-se a descoberta do depósito da serra do Tepequém,
próximo à divisa com a Guiana, que manteve-se como
o mais importante do estado por longo tempo. No início
da década de 60, ocorreu um declínio da produção,
como resultado da impossibilidade de aplicação de
métodos rudimentares aos já baixos teores das aluviões
remanescentes. A partir dos anos 70, teve início a produção
mecanizada e, em meados da década seguinte, foi criada
a reserva garimpeira de Tepequém, fechada em 1989. Dois
anos mais tarde, deu-se a criação do Parque Nacional
dos Índios Ianomâmis, neste estado em que as questões
indígenas e ambientais exerceram influência preponderante
na produção.
Depósitos
diamantíferos menos significativos foram descobertos nos
séculos XIX e XX em diversas regiões do país,
nos estados de Minas Gerais (Serra da Canastra e Presidente Olegário),
Piauí (Gilbués e Monte Alegre), Paraná (Rio
Tibagi), São Paulo (Franca), Mato Grosso do Sul (Aquidauana),
Goiás (Israelândia e Araguatins), Pará (Itupiranga
e Itaituba), Tocantins e outros.
Atualmente,
o Brasil detém uma posição quase insignificante
no mercado global de diamantes, respondendo por aproximadamente
1 % da produção mundial. O modo de ocorrência
dos diamantes em todas as localidades brasileiras mencionadas
é similar, sendo as gemas lavradas em depósitos
secundários, sejam aluviões, eluviões, colúvios
e/ou em metaconglomerados.
Embora no
Brasil ocorram centenas de kimberlitos e lamproítos, as
fontes primárias do diamante, a imensa maioria destes corpos
rochosos é estéril ou apresenta teores insignificantes
sob o ponto de vista econômico, de modo que, até
onde sabemos, toda a produção ainda é oriunda
de depósitos secundários. Os corpos mineralizados
conhecidos ocorrem, assim como em todo o mundo, em regiões
estáveis a pelo menos 1,5 bilhões de anos e, no
Brasil, estão associados a lineamentos estruturais, embora
não seja esta uma premissa em termos mundiais. Em nosso
país, a proporção entre as pedras para uso
em joalheria e as destinadas à indústria é
muito variável segundo a origem, sendo o percentual de
diamantes-gema na região da Serra do Espinhaço (MG)
o mais alto do país, superior a 80 %, uma das maiores médias
mundiais.
Quanto à
gênese, a teoria mais aceita hoje em dia é a de que
os diamantes encontrados nos depósitos secundários
brasileiros derivaram de fontes primárias de idade pré-cambriana,
em alguns casos originalmente localizadas a centenas de quilômetros
da região onde hoje são encontrados os diamantes,
que teriam sido transportados e distribuídos por eventos
glaciais. A título de curiosidade, cabe mencionar que evidências
sugerem que os diamantes de algumas ocorrências, como as
da região de Franca (SP) e do rio Tibagi (PR), sejam oriundos,
em parte, do continente africano, evidentemente formados antes
da separação continental América do Sul /
África.
Desde os anos
60, diversas empresas de mineração vêm atuando
na prospecção sistemática por fontes primárias
e secundárias de diamante em várias regiões
do país que, descobertas e comprovadas viáveis,
resultarão na renovação dos meios de produção,
com os métodos empregados na atividade de garimpagem sendo
gradativamente substituídos pelas operações
mecanizadas de lavra e beneficiamento.
Fontes
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