março / 2008
Continuando a entender as técnicas que utilizamos para que uma fotografia de jóias torne-se algo inteligível para o olho humano e, principalmente, algo agradável e que desperte o desejo de compra, é preciso continuar a discutir as diferenças entre olhar uma jóia diretamente e olhar a fotografia desta jóia.
Nas últimas colunas, abordei as diferenças entre olhar uma jóia tridimensional e registrá-la nas duas dimensões de uma fotografia. Agora vamos pensar na jóia em quatro dimensões. Falo do tempo como uma dimensão.
Enquanto olhamos uma jóia, a mão (ou o corpo) que a segura movimenta-se. Os olhos movimentam-se, percorrendo a jóia e procurando enxergar determinados detalhes ou vendo-a por inteiro. Até mesmo a luz varia durante o tempo em que vemos a jóia. Todos estes movimentos são registrados e interpretados como um conjunto em nosso cérebro.
Não somente os olhos, mas os nossos sentidos e, principalmente o tato, adicionam informações a essa interpretação feita pelo nosso cérebro. Percebemos formas, texturas e materiais das partes distintas de uma jóia.
Também a interpretamos mental e emocionalmente, comparando o que vemos com nossos bancos de dados internos.
O cérebro interpretativo percebe também o ambiente que o cerca, os reflexos indesejáveis e outros estímulos, levando-os em conta.
Experimente olhar uma jóia em ouro reflexivo e você verá que o reflexo de suas roupas, de seu rosto e de tudo que o cerca estará lá, mas não atrapalha a percepção da jóia como ela é.
Nossos olhos, de forma quase imperceptível, percorrem as áreas de sombras e de brilhos, abrindo e fechando as pupilas. Na prática é como se aumentássemos ainda mais a latitude da luz percebida pelo nosso olhar.
A própria fonte de luz varia durante o tempo em que observamos a jóia. O exemplo mais comum é a luz fluorescente, tão comum em nossas empresas. Esta é uma luz que pisca numa freqüência muito alta, não percebida conscientemente mas traduzida, em nosso caso específico, em faiscar. Toda luz tem a sua freqüência.
A fotografia é extremamente limitada quando comparada a esta capacidade interpretativa de nosso conjunto “sentidos – cérebro”.
Quando fotografamos, a peça, a luz e a câmera ficam imóveis.
Quando vemos a fotografia impressa vemos um registro de uma fração de tempo. Não adianta mexermos a fotografia de um lado para o outro ou expô-la a diferentes luzes. Não seremos capazes de perceber mais detalhes do que os que foram registrados ali. Temos agora uma imagem bidimensional.
A jóia que ilustra esta matéria é da designer Kamilla Nasser. É um típico exemplo de jóia que reflete tudo a sua volta. Reflexos indesejáveis poderiam impedir a compreensão da peça em si e o trabalho do fotógrafo consiste, nesse caso, em registrar os reflexos e sombras de forma a ajudar a interpretação das características da jóia e, melhor ainda, despertar o desejo de compra em quem a vê!
Mês que vem falarei um pouco sobre tratamento digital das imagens. Até lá. |