fevereiro / 2008
No último mês eu falava sobre como o cérebro reage diferentemente ao ver uma imagem bidimensional e outra tridimensional.
Essa capacidade de interpretação tanto cria problemas em entender uma imagem fotografada quanto pode ser explorada positivamente de forma a criar, além do entendimento tridimensional da peça, uma forte empatia pela jóia, despertando um lado emocional que se traduz no desejo de compra.
Ao posicionarmos uma jóia para ser fotografada, desenvolvemos, com o passar do tempo, um determinado “bom gosto”, que se traduz numa aceitação estética por parte da maioria das pessoas que vêem a foto finalizada. Isso não é algo tão intangível como possa parecer a princípio, pois está determinado por diversos estudos do comportamento humano que vêm sendo feitos pelo menos desde a antiguidade clássica e que foi muito desenvolvido a partir da década de 30 e, principalmente, durante as décadas de 50 a 70 pela publicidade.
Sabemos que o olho humano procura principalmente determinados pontos de uma imagem chamados “pontos de ouro”. Para quem trabalha com design, isso deve ser bastante conhecido e constantemente utilizado na composição de suas criações, seja utilizando essas regras básicas, seja transgredindo-as, pois o que poderia parecer um erro técnico, às vezes torna-se justamente um grande ponto de interesse da jóia. Na fotografia esse conhecimento é também fundamental na composição de uma imagem, traduzindo-se em imagens que fluem diante dos olhos ou mesmo atraem a atenção pelo inusitado da composição.
Outra diferença entre vermos a imagem estática de uma fotografia e a mesma imagem diretamente com nossos olhos é a chamada “latitude” que representa a capacidade de registrarmos detalhes nas altas luzes, nas baixas luzes e a graduação de tons de cada cor em determinada cena. Essa capacidade no olho humano é indefinidamente maior do que num filme fotográfico ou num sensor digital, sendo que o filme possui uma latitude maior que os sensores produzidos por enquanto, daí sua qualidade inicial superior. Falaremos disto mais adiante, quando começar a abordar o assunto “tratamento digital”. Falemos, por enquanto, das diferenças entre o olho e a fotografia, de forma genérica.
Tendo a fotografia uma latitude muito menor que o olho humano, a fotografia de jóias torna-se um pouco mais complicada que a fotografia de outros temas, uma vez que a maioria das jóias é feita com pedras lapidadas e materiais metálicos reflexivos que geram grande quantidade de brilhos (altas luzes) e que podem ofuscar detalhes mais escuros. Precisamos de um cuidado redobrado na hora de iluminar uma jóia para encontrar esse delicado equilíbrio de brilhos e sombras, sem prejudicar toda a gama de cores e detalhes mais delicados, aproximando a imagem fotográfica do que o olho poderia ver diretamente.
A imagem que ilustra esse artigo foi feita para Kamille Bernard e ilustra bem os conceitos aqui apresentados:
Temos um anel com um enorme peso na parte superior equilibrado sobre um aro bem mais estreito e essa sensação de desequilíbrio é atenuada pelo volume da sombra, que acentua o equilíbrio (dentro do que poderia parecer desequilíbrio) e ainda dá um “chão” à imagem, acentuando seu caráter tridimensional e conferindo realismo, que pode traduzir-se em credibilidade. Os “pontos de ouro” também foram utilizados para criar o que chamamos de “sentido de leitura”, que leva nosso olhar a passear pela imagem num sentido diagonal, de cima para baixo e da esquerda para a direita, sentido que nossos olhos procuram naturalmente como se estivéssemos lendo um texto, mas que é quebrado ao final do movimento pelo fato do anel estar com seu peso maior na área superior esquerda, o que tende a trazer nosso olhar de volta ao início de seu movimento dentro do sentido de leitura. Essa é uma forma comum de capturar o interesse de quem vê a fotografia.
Temos também uma correta exposição e um bom tratamento digital que preserva tanto as altas luzes, como as sombras e os detalhes em todas as pedras coloridas facetadas das laterais do anel e dos diamantes, os diversos tons no ouro branco, inclusive áreas negras, e acentua a forma cabouchón da pedra principal, com brilhos diluídos de forma gradual porém brusca, mantendo o contraste geral. O posicionamento também ajuda a interpretação tridimensional da peça.
Como disse, esse assunto é meio longo e continuarei no próximo mês. Até lá!
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*Marcos Vianna - trabalha com fotografias desde 1984, quando cursava Publicidade e Propaganda na UFRJ. Foi assistente dos fotógrafos Milton Montenegro, Márcia Ramalho, Ella Durst, Job, Vicente Valverde e do Estúdio Bloch Editores. Pertenceu à equipe do Jornal do Brasil, fotografando para a revista Domingo e encartes culturais. Especializou-se em fotos de jóias e tem em seu portifólio trabalhos executados para a Amsterdam Sauer, Natan, Lisht, Kamille Bernard e muitos outros, entre joalheiros e designers. Atualmente atende clientes nas áreas de joalheria, publicidade e moda em seu estúdio em Botafogo, no Rio de Janeiro.
Web site: www.marcosvianna.com
Contato: marcos@marcosvianna.com
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