agosto / 2004
Não
pretendo ensinar o Padre-Nosso ao Vigário. Apenas trazer
aqui algumas reflexões sobre a situação do mercado
joalheiro frente a outros produtos concorrentes diretos e
a situações de mercados, doméstico e internacional.
A curva de
consumo de ouro brasileira, segundo estatística do
Conselho Mundial do Ouro, partiu de um patamar baixo até
meados de 1992, teve leve ascensão até atingir seu
ápice (mesmo assim ainda não foi nada, comparado com
diversos outros países) em meados de 1997, permanecendo
estável até meados de 1998 e decresceu constantemente
desde então, até em 2003 voltar a se estabilizar por
baixo. Somente este gráfico já serviria para demonstrar
que é preciso se fazer alguma coisa para reverter a
queda.
Pesquisa
encomendada pelo Sebrae/WGC/IBGM em 1997, executada sobre
o mercado varejista brasileiro, demonstrou que os maiores
concorrentes domésticos da jóia eram os celulares, as
viagens (principalmente internacionais) e os automóveis.
O que faz uma pessoa optar por trocar de celular, em vez
de comprar uma jóia nova? O novo design e o consumismo,
pois a jóia, para muitos, deixou de representar o
glamour de outrora. Acostumados antigamente com a compra
de jóias italianas sucateadas naquele país e trazidas
como novo design por muitas indústrias nacionais, o
brasileiro hoje já tem a opção de adquirir jóias com
design vanguardista, criadas por nós mesmos e cobiçadas
por estrangeiros. Temos, então, a faca e o queijo na
mão, só temos que reaprender a cortá-los.
O mercado
nacional tem aproximadamente 16.000 pontos de venda a
varejo de jóias e cerca de 580 indústrias, o que
representa um enorme contingente potencial, gerador de
empregos e renda. Para evitar um colapso, já que
enfrentamos uma informalidade de mais de 50% no setor, o
Governo Federal já sinaliza a possibilidade de discutir
a pesadíssima carga tributária que pesa sobre as
empresas legalmente instaladas, dentro do programa Fórum
de Competitividade de Gemas e Jóias, com discussão
sobre toda a cadeias produtiva. Se podemos já aplaudir
esta iniciativa, com discussões a iniciar nos próximos
dias 5 e 6 de agosto, na implantação dos Grupos de
Trabalho do Fórum, temos também que fazer a nossa
parte.
No dia 5, se
instala o Grupo de Trabalho que discutirá o tema
Inserção Externa e Capacidade Exportadora, que me diz
respeito mais diretamente e pretendo participar, como
consultor especializado no assunto. Temos muito a
discutir, pois as exportações de jóias também não
têm surpreendido, demonstrando estabilidade com
tendência para queda, se comparados os números de 2002
e 2003. Esperamos todos que possamos contribuir para
reverter este quadro e fazer o setor joalheiro acompanhar
o aumento da nossa balança comercial. Penso que temos um
potencial de crescimento de nossas exportações ainda
não explorado. Não é fácil vender jóias a outros
países, pois muitas são as barreiras, mas exige, antes
de mais nada, persistência e visão de médio e longo
prazo. O termo certo seria "compromisso" com a
inserção exportadora, tema que iremos tratar no âmbito
do GT acima.
Não há
lugar para visão de curto prazo no mercado
internacional. Não cabe amadorismo, falta de recursos
para fazer frente à abertura constante de mercado,
visão imediatista e necessidade de fazer caixa
rapidamente. O mercado trata bem a empresa que nele se
instala de forma profissional. Elaborar planejamento
estratégico é, não só para exportação, a única
chance de sucesso nos dias atuais de vacas magras. Da
mesma forma que penetrar no mercado doméstico é
difícil, exportar exige mudança de filosofia
empresarial, que no jargão profissional chamamos de
"assimilação de cultura exportadora".
Se até os
dias de hoje conseguimos sobressair no exterior de alguma
forma, foi apresentando produtos diferenciados, com a
criatividade de nossos designers. Tem razão o Presidente
da AngloGold Ashanti, Sr. Roberto Carvalho Silva, quando
diz que que a reversão da queda de consumo do ouro se
dará com o design de jóias. Preço e possibilidade de
compra não são fatores fundamentais para se obter
sucesso em vendas, pois estas vendas, como comprovado
mais acima, pela pesquisa de 1997, se darão para os
produtos concorrentes. Quando se vê, em uma vitrina,
como exemplo, um ventilador tradicional com um preço
razoável e um de design extremamente arrojado, porém
com preço um pouco mais elevado, não iremos optar por
adquirir o melhor deles? Pois é, assim também será com
a jóia. Investir em design não onera demasiadamente o
preço de uma jóia. Devemos, então, aprender, como
muitos já descobriram com a implementação de uma
gestão de design, como parte do planejamento
estratégico, que a retomada do crescimento exige
repostura profissional e investimentos acertados.
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