A cara do Brasil vem sendo apresentada por meio de
imagens da pobreza. Quem no mundo nunca viu as imagens
contundentes de uma criança subnutrida (a barriga cheia,
mas de vermes)? Ou do gado morto pela falta de alimento,
a ossada estendida nas paisagens quase desérticas de um
sertão improdutivo? Ou, ainda, quem nunca reparou no
desconsolo das mães de família que nada têm a oferecer
aos seus inúmeros filhos, a tristeza estampada no rosto
de tantos vincos, prova do envelhecimento precoce, qual a
terra árida em que vivem?
Entretanto, não é esse o rosto que o
Brasil quer ter ou mostrar para o mundo. O Conselho da
Comunidade Solidária, reunindo representantes de
instituições governamentais e da sociedade civil, desde
cedo entendeu que é preciso criar programas eficazes de
combate aos efeitos da seca. A aquisição de
experiência e o convívio com a população afetada pela
seca fizeram ver aos consultores, gerentes e
coordenadores dos projetos do conselho que, além das
diversas ações e projetos ambientais para
desenvolvimento dessas regiões, outra vertente
mostrou-se forte, interessante e receptiva aos programas
de combate à pobreza brasileira: o artesanato,
patrimônio cultural de nosso povo.
E assim foi criado, em 1998, no âmbito da
Comunidade Solidária, o Programa Artesanato Solidário,
que se iniciou sabendo ter pela frente artesãos
desestimulados com a falta de incentivo ao seu trabalho e
que, mais do que isso, sequer viam nele uma fonte de
renda. Desse modo, seus filhos não herdavam o dom do
fazer artesanal e, aos poucos, estavam perdendo sua
identidade e expressão culturais riquíssimas, em
contraste à extrema pobreza econômica. Eles,
abandonando sua arte; os brasileiros, esquecendo que o
artesanato é uma arte.
O maior trunfo do Artesanato Solidário é
a rejeição ao assistencialismo, recorrente na maioria
dos programas, até então, existentes nas regiões de
seca. Seus consultores e agentes locais fomentam nas
pequenas comunidades o trabalho artístico organizado em
associações, a fim de descaracterizar o isolamento a
que estavam confinados os artistas regionais; capacitam
os artesãos a entender a importância de seu trabalho, a
vê-lo como fonte geradora de renda e a conciliar
produção otimizada com venda dos produtos a preços
justos. Além disso, estimulam a criação de artigos e
utilitários que, sem perder sua identidade artesanal e
tradicional, se inserem na realidade do mundo moderno.
Com incentivo à utilização de matéria-prima local, os
artesãos passaram a exercitar sua criatividade com novas
formas e combinações, novos tipos e padrões de
bordados, rendas, cerâmica e tantas outras técnicas
artesanais.
Hoje, o programa atua em 53 localidades de
13 Estados brasileiros, com francas possibilidades de
expansão no decorrer deste ano. E as mudanças são
visíveis para todos, desde os sujeitos desse processo
(os artesãos), passando pelos colaboradores (os
parceiros, patrocinadores, consultores e agentes), e indo
até os espectadores (os compradores). Em Riacho Fundo,
por exemplo, zona rural de Esperança, na Paraíba, as
bonecas de pano lá produzidas eram vendidas só com
muita dificuldade há cerca de dois anos. Reunidos na
Associação dos Artesãos de Riacho Fundo e estimulados
pelo Programa Brinquedos do Agreste Paraibano, os 40
artesãos atualmente produzem entre 500 e 1.000 peças
das famosas Bonecas Esperança e cativam
brasileiros e estrangeiros. A renda mensal familiar dos
associados varia entre R$ 150 e R$ 400.
Em Candeal, município de Cônego Marinho,
região mineira, assolada pela seca, são seculares as
técnicas utilizadas para a produção de objetos de
cerâmica, assim como são radicais as mudanças notadas
nos últimos tempos, graças ao Projeto Cerâmica de
Candeal, levado adiante em parceria com outras
instituições. Nota-se um aumento do número de
artesãos, hoje reunidos num galpão destinado à
produção coletiva. Com a ajuda dos agentes
capacitadores, houve a ampliação da rede de
comercialização dos produtos, aumento da renda e
conscientização de que, quanto melhor a qualidade de
trabalho artesanal, mais independente ele se tornará do
programa.
São muitos os exemplos de êxitos do
Artesanato Solidário nas localidades de nomes que
também encantam pelo seu lirismo: Olho DīÁgua do
Casado, Turmalina, Cajueiro da Praia, Divina Pastora,
Riacho Doce, Poço Redondo, Berilo, Rio Real, só para
citar algumas e nas quais, segundo uma abordagem entre os
866 artesãos entrevistados, mais da metade revelou
sentir-se melhor como pessoa após a
implementação do programa em sua localidade, 74%
passaram a participar das associações criadas ou
fortalecidas, 81% reconheceram melhoria da qualidade de
seus produtos, entre outros dados positivos.
Dificuldades, claro, também foram apontadas, como a de
encontrar e comprar a matéria-prima e transportar seus
produtos para os grandes centros. O dado mais
significativo da pesquisa, porém, não é revelador: 85%
dos artesãos são mulheres.
Sabendo que a valorização da tradição
nada tem de nostalgia, se a tradição estiver ligada à
vontade de mudar, a iniciativa de revitalizar o
artesanato em determinadas áreas carentes do país se
traduz e comprova fortemente, antes de tudo, na
promoção da mulher pobre e artesã em verdadeira agente
do desenvolvimento socioeconômico de sua comunidade e,
em especial, na melhoria das condições familiares
impostas a ela pelo contexto social já conhecido por
todos nós.
A atividade artesanal da mulher, antes
relegada a segundo plano e, dificilmente, fonte geradora
de renda, passa, com a implementação eficaz do
programa, a ser um reforço insubstituível à retomada
da auto-estima. Neste sentido, os números pouco dizem
dessas mudanças na vida da artista do povo. Como
demonstrar em números a fisionomia notadamente mais
alegre e confiante de uma mulher que, se antes era
desprovida de incentivos à autopromoção, hoje é
partícipe ativa da renda familiar? Como transformar em
estatística o fortalecimento do amor-próprio, observado
na maneira de vestir-se, na facilidade de uma expressão
verbal antes oprimida, nas unhas que, mesmo sujas do
barro que se transformará em arte, estão singelamente
pintadas de esmalte cor-de-rosa?
O rosto da artesã brasileira pode mudar,
e suas mãos, postura e elegância também são a sua
cara. A sua cara é a de uma profissional valorizada pelo
seu trabalho, que divide com o marido as despesas da casa
e a aquisição de bens de consumo antes inalcançáveis;
seu rosto muda porque ela come melhor e tem como
alimentar os filhos (e eles também mudarão). Seu rosto
pode ser um rosto alegre, que conota atitude e não mais
passividade.
Evidentemente, o Programa Artesanato
Solidário não tem a capacidade de trabalhar de modo
mais abrangente, como deveria e gostaria. Mas, com a
participação financeira imprescindível dos parceiros
do programa, dentre os quais se destaca o Sebrae,
chegará paulatinamente a mais municípios brasileiros,
contribuindo para que o artesanato seja valorizado tanto
pelos seus produtores quanto pelos compradores; para que,
com isso, os artesãos, sobretudo as mulheres, se sintam
cidadãos de primeira categoria, prenhes de auto-estima,
e para que, naquele rosto castigado pela pobreza, seja
possível vislumbrar um sorriso bem nutrido.
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