
De:
Maria Regina Machado Soares
Para:
os analistas do simbólico
Rio de
Janeiro, outubro de 2005
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Trabalhando
como arquiteta, busquei, por entre as questões que envolviam
as necessidades funcionais dos projetos, todas as possibilidades
de composição harmoniosa com as cores e com o equilíbrio
visual entre as formas. Direcionei o interesse do meu olhar aos
detalhes e às texturas. Ao relembrar o momento, ainda na
infância, quando me decidi pela arquitetura como vocação,
a memória me faz rever inúmeros dos meus desenhos
e todos eles ilustravam figuras femininas detalhadamente adornadas
com tiaras, colares, anéis, pulseiras e brincos, desenhados
com muita dedicação.
Naquela
época, eu não poderia imaginar que todo aquele interesse
pudesse ser levado a sério como profissão. Hoje,
penso as questões relativas à linguagem das formas
através da beleza colorida das gemas e das estruturas miniaturizadas
executadas em ouro e prata. Emociono-me ao ver essas arquiteturas
delicadas sobre os corpos e compreendo a grandiosidade desses
objetos, que há mais de 5000 anos adornam a vida humana.
Como destacou o professor Muniz Sodré, os designers de
jóias são analistas do simbólico e lidam
com o significado para além do valor material dos objetos.
As jóias hoje não valem mais somente “o quanto
pesam”, mas, sobretudo, “o quanto pensam”, ou
o quanto nos fazem pensar e emocionar.
Em 2002, a ECO da UFRJ
acolheu esse meu interesse pelo tema e concluí, em 2004,
um mestrado sobre “A narrativa das jóias e as tendências
do novo luxo”. A partir da percepção das importantes
mudanças conceituais já incorporadas pela joalheria
contemporânea, interessei-me pela dinâmica do próprio
sentido do luxo. Esse aspecto despertou em mim novas questões
e me inspirou a elaboração da pesquisa de doutorado.
Desde então, por
mais que eu defenda a legitimidade acadêmica do tema - tendo
em vista o fato do assunto estar presente na maioria das pautas
das mídias contemporâneas - venho percebendo que
uma pesquisa sobre as tendências do luxo necessita de explicações
preliminares. Pensar seriamente as questões relativas à
comunicação entre a produção e o consumo
do luxo parece requerer a construção de um álibi
moral que justifique o interesse pelo assunto. Gilles Lipovetsky
teve o cuidado de começar o seu livro “O Luxo Eterno”
explicando o seu interesse: Não tenho gosto particular
pelo luxo. Apenas o de pensá-lo.
De minha parte a explicação
é muito simples. Gosto de pensar nas jóias porque
não consigo deixar de prestar atenção na
beleza e sinto curiosidade por estudar o luxo porque me interesso
pelas questões relativas aos desejos e aos sonhos. Como
meus colegas, sou uma analista do simbólico e pretendo
seguir a vida prestando muita atenção em todos os
seus maravilhosos detalhes. Não tenho qualquer problema
moral em trabalhar com a joalheria e acredito que a sua produção
pode gerar muitas novas oportunidades de trabalho para as mais
distantes localidades do território nacional.
O
Brasil se libertou, a duras penas e só muito recentemente,
de sua tradição de exportador de matéria
bruta e vem conquistando espaço na prateleira do luxo global
disponibilizada às identidades culturais periféricas.
Essa passagem precisa ser conscientizada.
As análises
sobre o desenvolvimento estratégico, sobretudo os estudos
que envolvem pesquisas sobre a produção nacional
visando a exportação, esperam que o setor joalheiro
possa participar, cada vez mais ativamente, da distribuição
de novas oportunidades de trabalho. Essa expectativa é
fundamentada, sobretudo, pelo interesse que o luxo contemporâneo
tem pelas nossas gemas, nossas sementes, madeiras e pela diversidade
de nossas influências culturais. A natureza distribuiu sem
parcimônia suas riquezas neste solo. Desde a localidade
contemplada com o menor IDH do Brasil, localizada no interior
do Piauí, onde convivem a pobreza da população
e a riqueza das gemas coradas, até os pampas gaúchos
com a exuberância de seus materiais preciosos, o desafio
dessa oportunidade se apresenta para todas as consciências.
Se, como Coco Chanel,
acreditarmos que o luxo não é o contrário
da pobreza, poderemos desejar que o seu consumo possa ser positivado
pelo beneficiamento das condições de vida daqueles
que participam dos muitos elos de sua cadeia produtiva. O Prêmio
IBGM, cujo tema é um estímulo à pesquisa
temática das características culturais das regiões
brasileiras, é uma importante oportunidade para destacarmos
o engajamento social dessa nossa atividade.
Boa sorte meninas, epa...,
digo, meninos, ou melhor, boa sorte analistas do simbólico!
Beijos.
Maria Regina
Machado Soares, mas podem me chamar de Regina Machado |