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O MISTÉRIO DO TESOURO
DE SUTTON HOO


Julieta Pedrosa*


Enterrado perto do estuário do Rio Deben, no local conhecido como Sutton Hoo em Suffolk, Inglaterra, o barco que pertenceu a um rei saxão foi descoberto em 1939, poucos meses antes de ter início a II Guerra Mundial. Estudos indicam que possa ter pertencido ao rei pagão Raedwald, que viveu nesta região por volta do século VII e morreu em 625 dC. Um dos chamados Quatro Senhores da Bretanha, e conhecido como rei da Anglia do Leste, reinou sobre reinos menores e reverteu toda a região sob seu domínio ao paganismo, admitindo nos mesmos altares deuses pagão e o Deus cristão.

O interior do navio foi encontrado totalmente recoberto por tapetes, e contendo todos os objetos pertencentes a um rei guerreiro: elmo, cota de malhas, espada, escudo, martelo usado em batalhas, fivelas para manto e botões para vestimenta, cetro, uma lança que deve ter servido como porta-estandarte, moedas e diversos objetos de uso diário, como vasilhas em prata e em bronze, pratos de madeira, chifres que serviam como copos para servir bebidas, uma enorme e intrincada corrente, e pedaços de tecidos feitos em lã nas cores índigo, vermelho e amarelo.

Feito em ferro, o elmo é decorado com finas folhas de bronze e detalhes em prata, onde se encontram gravadas cenas com animais e também da mitologia escandinava. O escudo e a espada também são impressionantes. Inicialmente recoberto com madeira e lã grossa, o escudo agora somente mostra a sua estrutura em ferro e dois animais que o decoram: um dragão e um pássaro, ambos em bronze e guarnecidos com granadas. O punho da espada é maravilhosamente decorado com um trabalho em cloisonné em ouro com granadas e o corpo da mesma consiste em várias folhas de ferro trabalhadas em paralelo, formando uma espada extremamente pesada e mortal.

Mas é nos objetos menores que podemos constatar a maravilha e a excelência dos ourives daquela época: as fivelas para o manto e para o cinto, e a bainha da espada. De confecção extremamente intrincada e delicada, sugerindo um virtuosismo do ourives, a fivela do cinto, em ouro e bronze, possui três fechos de segurança, e as fivelas para o manto, feitas em ouro e decoradas com vidro em millefiori e granadas, são curvas para se adequarem aos ombros e possuem um padrão decorativo zoomórfico.

Não foram encontrados vestígios de um corpo no ácido solo local, o que sugere que o mesmo era um monumento em honra a um rei, que por sua vez foi enterrado em outro lugar. Evidências de fosfatos residuais provam, no entanto, que um corpo esteve um dia enterrado dentro do barco...



*Julieta Pedrosa - carioca, arquiteta formada pela UFRJ, pós-graduada em Análise de Projetos pela FGV, e com vários cursos em áreas da joalheria, é designer de jóias e professora de História da Joalheria e de Gemologia básica em Brasília, DF, onde mora. Suas jóias exibidas em cidades de Portugal, Espanha e na França, assim como no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Hong Kong, privilegiam as linhas curvas, a fauna e a flora brasileiras .
e-mail:
julieta@julietapedrosa.com.br
site:
www.julietapedrosa.com.br