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JOALHERIA VITORIANA
Parte II


Julieta Pedrosa*


As mulheres vitorianas usavam jóias não somente como um acessório decorativo, mas também como um veículo para expressar sentimentos. Os cabelos, usados nesta época à altura dos joelhos e considerados um bem inestimável da mulher vitoriana, passaram também a fazer parte de jóias que expressavam sentimentos e desejos femininos. Durante anos foi muito popular a utilização de uma jóia (broche, pendente, anel ou relógio) contendo uma mecha de cabelos da pessoa amada, geralmente colocada nas costas da peça.

A corrente para relógio, feita com cabelos femininos, foi também um adorno extremamente popular. Ao oferecer ao seu amado uma corrente feita com seus próprios cabelos, uma dama podia ter a certeza de que povoaria os pensamentos do cavalheiro várias vezes ao dia. Braceletes feitos com cabelos infantis eram as jóias prediletas das mães devotadas, assim como pendentes em forma de cruz e pares de brincos eram considerados adoráveis. Os cabelos inicialmente eram enviados a um profissional, para fazer o trabalho de entrelaçamento necessário e só então eram enviados ao ourives, para comporem a jóia pretendida. De tão populares, as jóias feitas com cabelos estimularam a indústria de jóias, que tinham à disposição da clientela variados complementos para confecção de braceletes, broches e brincos. Para a confecção de colares compridos ou correntes para relógios, o joalheiro usava pequenos tubos de ouro para juntar as mechas de cabelos.

Quando o Príncipe Albert deu à rainha Vitória um anel de noivado em forma de serpente, iniciou um revival por este antigo motivo decorativo. A própria Rainha usou várias outras jóias com design de serpente, incluindo um bracelete que quase não tirava do pulso. Usar uma jóia em forma de serpente ou decorada com o design da mesma era garantia de boa sorte, segundo a crença da época: damas podiam ser vistas por toda a Londres elegante portando anéis, braceletes enrolados em volta dos braços e broches.

De todas as gemas, a ametista era a favorita do período vitoriano, e era aceitável utilizá-la em jóias nos últimos estágios de um luto (severamente observado durante esta época), onde nenhuma outra gema, à exceção do já mencionado jet, era sociavelmente aceita como adorno para as jóias. Por ser uma gema de valor acessível, podia ser usada por quase todas as classes sociais.

Ao contrário, a opala, apesar de ser uma das gemas favoritas da Rainha Vitória (para todas as suas filhas, Vitória deu jóias adornadas com opalas quando ficaram noivas), tinha fama de trazer má-sorte a quem aportava. Isto se devia na Inglaterra a um romance, "Anne de Geurstein". Neste romance, uma das personagens, Lady Heromine, portava freqüentemente uma jóia com opala adornando os cabelos, que parecia que mudava de tonalidade de acordo com seu humor. E no romance, muito lido à época, a personagem tem um fim trágico. Isto serviu para acender no imaginário popular quanto fama de portadora de má -sorte da gema. Esta se tornou tão difundida que, quando o Imperador Napoleão III presenteou a Imperatriz Eugênia com uma parure de opalas, ela delicadamente a recusou.


*Julieta Pedrosa - carioca, arquiteta formada pela UFRJ, pós-graduada em Análise de Projetos pela FGV, e com vários cursos em áreas da joalheria, é designer de jóias e professora de História da Joalheria e de Gemologia básica em Brasília, DF, onde mora. Suas jóias exibidas em cidades de Portugal, Espanha e na França, assim como no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Hong Kong, privilegiam as linhas curvas, a fauna e a flora brasileiras .
e-mail:
julieta@julietapedrosa.com.br
site:
www.julietapedrosa.com.br