INTRODUÇÃO
O modelo e a realidade
do setor joalheiro, em toda a sua cadeia produtiva e nos
diversos tipos de produtos, com suas especificidades e
empirismo, causado pelo perfil informal e familiar - e
muito particular, criaram ambientes únicos, e que
provavelmente em nenhum outro setor poderemos observar.
Essa realidade, em seu modelo próprio nas empresas, tem
muito ainda a se desenvolver, pois até o presente
momento não identificou a base sólida de sua Gestão,
com forma estruturada e estratégia própria de uma
Organização e que, na busca incessante em outros
modelos, não observa a si mesmo e as metodologias de que
necessita.
Convivendo já há 29
anos de minha vida profissional no setor joalheiro,
iniciados como aprendiz na Indústria de Jóias
Costantini, em São José do Rio Preto-SP (74/76),
posteriormente na Rei Grau Jóias (76/86) como modelista,
quatro anos como ourives autônomo (87/91), sete anos
como Professor no SENAI (87/94), e atualmente como
consultor (92/03), e em contato com três gerações de
empreendedores joalheiros, sempre observei e coletei
dados da realidade e da cultura do setor, e que talvez
poucos o tenham, em razão da minha própria formação
acadêmica, bem como a adquirida ao longo de minhas
atividades de consultor no setor joalheiro, como em
outros.
Na década de 90 e
pelo convívio com vários tipos de empresas,
laboratórios e ateliês de criação - ao todo mais
de 65 empresas atendidas através de consultorias no
total, e mais de 200 empresas em todo o território
nacional com programas de treinamentos e projetos
conjuntos com o SEBRAE e entidades de classe do
setor (período este que a minha pesquisa mais se
estruturou) - obtive informações que auxiliaram no
raciocínio aqui apresentado e que, nos últimos dois
anos, principalmente após meu último trabalho de
Pós-graduação no programa de Gestão Avançada de
Recursos Humanos, possibilitaram um diagnóstico mais
detalhado do setor como um todo.
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As novas exigências de
mercado e o contraste da particularidade na informalidade
total das empresas joalheiras, principalmente quanto a
informações, fazem-nas defrontar com lacunas
importantes na capacitação dos seus empreendedores e
gestores em relação a outros setores, e aos objetivos
estratégicos necessários a manutenção das empresas no
futuro.
A ausência de alguns
conhecimentos (gaps) que afetam os resultados atuais,
tanto em organizações bem-sucedidas quanto as que
estão em desvantagem no mercado* criam cenários
hilários na busca de soluções, com receitas já
utilizadas e, em alguns casos, apenas reformadas, que
não se adaptam às novas exigências mercadológicas. Em
outras situações é visível a falta de foco, quando
não se há visão estratégica (causada em parte pela
total ausência de dados ou pela inexperiência em lidar
com os mesmos).
(*)por
defasagens causadas pela valorização excessiva das
habilidades práticas, políticas e retóricas dos
profissionais como critérios de promoções, sem avaliar
competências de gestão, com uma grande valorização
apenas da imagem e do discurso
Ao longo dos anos 90, o
foco apenas em resultados financeiros, ocasionado pelo
indicador único - o ouro, contribuiu para que o
empresário do setor desenvolvesse uma visão imediatista
e de pouca abertura para inovações. Isto criou
desgastes infundados (financeiros e criativos) em busca
de algo sem respostas, pois na época atual os resultados
são mais qualitativos do que quantitativos, e seus
métodos não mais atendem.
O setor joalheiro não
sofreu com as ondas de reengenharia e de
reestruturação, como outros setores, mas sim em outros
fatores. Em razão da necessidade - tanto técnica
quanto mão-de-obra - e fundamental ao produto, e a
característica no modelo de origem na maioria dos
empreendedores joalheiros, o conceito forte no fator
prático atrelado a um alto índice de empirismo nas
decisões mais importantes do que a formação real do
administrador, foi criando oportunidades muitas vezes
não bem exploradas e, ao mesmo tempo, algumas
armadilhas. Posso citar como exemplo a excessiva
criação de novos modelos, muitas vezes semelhantes aos
anteriores, e que canibalizam rapidamente o próprio
produto.
Identificar resultados
futuros ao setor joalheiro é sempre confuso, diante de
cenários e fatos que necessitam serem mais claros a
todas as situações, e que estarão presentes
principalmente aos personagens (empresários),
coadjuvantes dos mesmos. Assim, crio os cenários que
serão aqui apresentados para podermos interpretar a
avaliação: basicamente micro e pequenas empresas
(indústria e varejo), compreendidas em várias cadeias
produtivas (jóias de ouro e folheados) em 07 principais
pólos produtivos localizados nas cidades de São Paulo,
Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São José do Rio Preto,
Guaporé, Limeira, Juazeiro do Norte, bem como não
participantes de pólos como Goiânia, Curitiba,
Londrina, Porto Alegre, Presidente Prudente,
Pirassununga, Florianópolis, Belém e outras cidades
brasileiras, em que muitas empresas se originaram de
ex-funcionários da primeira geração de empreendedores
joalheiros, e com formação cultural muito forte no
aspecto da confiabilidade, porem frágil na sua
concepção de organização.
Nosso primeiro cenário
tem inicio no ano de 1994, onde o setor joalheiro no
Brasil tinha uma capacidade de produção de jóias de
ouro de 55 ton./ano, com aproximadamente 520
empresas, e um consumo médio de 115 ton./ano,
sendo que a diferença da produção e consumo era
atendida com importação (ilegal) de jóias da Itália.
Com a inovação tecnológica (1994 / 2001) desenvolvida
(SINDIJÓIAS-SP / IBGM), onde as empresas investiram em
tecnologia de novos equipamentos, materiais e processos,
auxiliando no aumento da capacidade de produção
nacional para 105 ton. em 1996, e chegando a 215 ton.
em 2001 e aproximadamente 745 empresas.
O contra-senso veio com
a queda no consumo, causado diante das situações
econômicas, políticas e sociais no cenário nacional,
bem como conjuntamente por fatores externos (11 de
setembro), e assim passamos de um consumo de 115 ton./1995
chegando a 65 ton./ 2001, criando uma oferta
de mercado maior do que o consumo. Apesar da queda no
volume (ton.) de consumo, a produção em unidade
(peças) teve sua redução mais lenta, pois o consumidor
- por fatores econômicos - passou a adquirir
produtos mais em conta, portanto alterando a criação de
produtos mais leves. O mesmo ocorreu na produção de
folheados, se alterando apenas em períodos cíclicos de
alta não constante e queda acentuadas no inicio do ano
2003.
Na avaliação e
diagnóstico do setor como um todo, buscamos
identificações na relação causa e efeito (diagrama de
"Ishikawa") que,
com uma análise no ambiente de
trabalho, equipamentos, métodos de trabalho,
padrões existentes, materiais e, principalmente, nas
pessoas, questionamos as empresas como um todo em sua
inteligência organizacional.
Dentre os seis
pontos analisados, apenas dois atendem às exigências
atuais do mercado, sendo estes os equipamentos e os
materiais. As empresas hoje possuem o que há de mais
moderno em tecnologia existente, deixando o Brasil em
igualdade com as melhores empresas italianas, alemãs e
norte-americanas. Porém dificuldades nos
outros pontos podem, creio eu, comprometer toda a
cadeia produtiva em seus objetivos reais: o produto
e o cliente.
Com toda a tecnologia
implantada, as empresas não identificaram a necessidade
de definições de padrões e métodos (procedimentos) de
trabalho qualitativo, pois sem indicadores que monitorem
a eficiência e a eficácia do processo, navegamos em
mares revoltos como em um barco sem bússola. E
assim, vários produtos e processos são mais geradores
de desperdícios hoje do que os equipamentos já
obsoletos.
Não é mais possível
produzir jóias de rara beleza em um
ambiente deprimente, desorganizado e comprometedor.
Existem situações como a de equipamentos comprados sem
um planejamento adequado, que nunca foram utilizados
mesmo após 02 anos, sendo hoje empregados em outras
finalidades pelos funcionários, e não para o que
realmente a empresa precisaria ao seu bem estar no
ambiente de trabalho.
E, como item principal,
as pessoas - que no momento atual necessitam de mais
qualificação e competência em todos os aspectos. É
fundamental a introdução do conceito da organização
inteligente, onde todos pensem e não alguns, onde as
pessoas possam opinar no desenvolvimento do novo produto,
do inicio de sua concepção até a venda dos
serviços agregados, pois não temos mais tempo
e recursos para justificar a não-qualidade ao
mercado, e talvez achemos a resposta que o setor procura.
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