A noção de design tem
sido utilizada de modo equivocado e insuficiente pela
mídia em geral. Sua verdadeira importância reside na
sua capacidade de contribuir para o incremento
competitivo dos produtos manufaturados, qualquer que seja
o segmento industrial, assim como na produção de
imagens e mensagens capazes de consolidar o
posicionamento de uma empresa ou região no mercado.
A supervalorização da
dimensão estética do design esconde suas outras
dimensões que procuraremos explorar a seguir.
- A dimensão
estratégica / Produtos são fontes de
divisas e geradores de riqueza para uma nação
Vivemos hoje em uma
economia globalizada onde o desenvolvimento de
uma nação depende da oferta de produtos e
serviços competitivos. Fechar os olhos para as
oportunidades existentes no comércio mundial
significa dependência e estagnação econômica.
Para competir e
medir forças em um mercado cada vez mais
agressivo as empresas podem fazê-lo através da
redução de custos e conseqüentemente da
redução dos preços finais dos produtos ou
através da diferenciação qualitativa
Para um país
como o Brasil, que possui elevados custos
estruturais, competir apenas com estratégias
defensivas baseadas na redução de custos de
produção é uma alternativa bastante arriscada,
principalmente quando seus concorrentes são
alguns dos países asiáticos, cujo valor médio
da mão-de-obra é consideravelmente mais baixo;
a carga tributária muito menos sufocante e o
acesso aos mercados compradores muito mais
facilitado em função das medidas adotadas por
suas políticas industriais.
A reengenharia
empresarial e a reconversão tecnológica adotada
principalmente pelas empresas brasileiras
produtoras de bens de consumo, sobretudo nas duas
últimas décadas, não conseguiram ainda
aumentar a capacidade competitiva como se
esperava, e em contra-partida colaborou com o
aumento das taxas de desemprego e limitou os
mercados compradores.
Escolhemos mal
nossos adversários dentro da arena do disputado
mercado mundial. Ao invés de competir na base do
preço as empresas devem buscar a diferenciação
qualitativa agregando valor aos seus produtos e
serviços, conquistando o coração e a mente dos
consumidores, oferecendo algo singular, distinto
e exclusivo.
As grandes
tendências mundiais apontam para uma acentuada
polarização, colocando em posições opostas
empresas e serviços de padrão mundial e
empresas e serviços de conteúdo temático ou de
forte identidade cultural. As empresas que
permanecem entre os dois extremos estão perdendo
seus clientes que não desejam produtos híbridos
e indefinidos.
O incremento
competitivo dos produtos brasileiros deve,
portanto, ser conseguido pela diferenciação
qualitativa obtida com a agregação de valor e
aumento do valor percebido pelos consumidores.
Produtos com uma indicação de sua procedência
e que remetam a cultura e aos valores de sua
região são atualmente melhor diferenciados e
valorizados no mercado global, sempre ávido por
novidades.
- A dimensão
antropológica / Produtos são componentes
culturais
Esta diferenciação
pode ser conseguida explorando-se de modo apropriado os
elementos mais singulares da cultura material e
iconográfica de cada região, expressos em sua fauna,
flora, folclore, meio ambiente, paisagem construída e
nos artefatos do cotidiano, traduzindo assim os traços
da brasilidade em peças singulares e de forte valor
estético e cultural. Uma das características culturais
mais fortes do Brasil é seu sincretismo religioso e a
miscigenação racial que ajudaram a formar uma cultura
única e singular, fornecendo um rico universo de
referências.
Outro caminho
necessário a ser trilhado na busca deste patrimônio
intangível é conhecer a memória afetiva das pessoas,
suas lendas, tradições, os usos e costumes.
Transmitidos de geração a geração, dão as pistas da
história cultural de uma determinada região permitindo
a reconstrução de sua verdadeira identidade.
A identidade é o
amálgama cultural que torna possível fazer com que as
pessoas se conheçam entre si e se reconheçam
individualmente, criando ou recriando seu universo de
sonhos e necessidades, exprimindo suas crenças e
desejos, exteriorizando uma visão única e singular do
mundo que as rodeia.
Projetando na matéria
os gestos, as imagens, as cores e as marcas de seu
universo simbólico os designers, os artistas e os
artífices, fazem uma afirmação sobre suas origens,
contando parte de sua trajetória cognitiva, e dando
indicações sobre prováveis destinos.
3. A dimensão
antropológica / Os produtos e sua fruição.
Qualquer produto deve
ser pensado em função daquele que irá dele usufruir.
Portanto, definir o público alvo (consumidor visado)
deve ser a primeira tarefa de um designer, não
importando qual seja a categoria do produto que esteja
projetando.
A maior fonte de
inspiração do designer é o comportamento humano. As
necessidades e carências não satisfeitas são a grande
motivação para quem projeta, quem produz e quem
comercializa.
Os consumidores podem
ser agrupados em "tribos urbanas" com um estilo
de comportamento próprio, com valores estéticos,
ícones, mitos e características singulares.
Para saber se um produto
está de acordo com seu público alvo é necessário
considerar as características dos públicos
antagônicos. Um exercício prático consiste em desenhar
uma linha imaginária sobre a qual evidenciem-se os
comportamentos opostos. Se um determinado tipo de
consumidor visado estiver em um extremo desta linha, no
outro extremo estará seu grupo antagônico. E no meio
não haverá ninguém. Esta zona intermediária é o
espaço da mediocridade, das indefinições, dos produtos
que não agradam a ninguém, pois não possuem
personalidade, não se arriscam, não ousam e não
inovam.
Apenas como o objetivo
de ilustrar estas afirmações seguem alguns exemplos de
perfis de consumidores hoje existentes:
- Os Metrosexuais:
Neologismo criado em 1994 pelo jornalista inglês
Mark Simpson para definir os homens supostamente
heterossexuais, porém conectados com a moda,
vaidosos e sem preconceitos. Adotam acessórios
ultra-modernos e investem em jóias de design
contemporâneo.
- Os Agrosexuais:
Neologismo proposto para o grupo antagônico aos
metrosexuais. Define aqueles indivíduos que se
convencionou chamar, meio jocosamente, de
agroboys ou agrogirls. São jovens ruralistas,
românticos, apegados aos valores tradicionais,
moralistas e provincianos, que adotam uma
estética country americana como paradigma de
gosto. As jóias e adornos são elementos de
definição social e de status.
- Os Nostálgicos:
Conservadores, tradicionalistas e saudosos,
estão sempre fazendo uma releitura de épocas
passadas. Investem preferencialmente em jóias e
acessórios que remetam aos estilos de época.
- Os Visionários:
Vanguardistas, excêntricos, inovadores e
ousados. Lançam moda e ditam tendências. Para
estes as jóias servem como afirmação de seu
inconformismo com os padrões estéticos
vigentes.
- Os Intimistas:
Apegados à família e aos valores morais,
retraídos, tímidos, preservam sua privacidade e
evitam a exposição pública. Compram jóias
como investimento e para celebrar momentos
pessoais.
- Os Mediáticos:
Belos, charmosos, hedonistas, vivem da super
exposição na mídia e sua vida pública e
privada se misturam. As jóias e adornos são
como uma moldura complementar para o corpo. Devem
ter uma aparência que possa ser valorizada pelo
olhar eletrônico.
- Os Contemplativos:
Minimalistas, sensitivos, discretos, afetuosos e
sensíveis. Para estes as jóias são feitas,
não somente para olhar, mas para serem tocadas e
sentidas. Dotadas de energia própria as jóias
trazem promessas de paz, cura e serenidade.
- Os Vencedores: São
pessoas resultantes da mobilidade social que com
seu próprio esforço conseguiram conquistar uma
carreira e sucesso profissional. Disciplinados e
agressivos, dotados de grande auto-estima e
personalidade marcante, as jóias são como uma
certificação de seu êxito.
- Os Esportistas:
Cultivam o corpo e a vida saudável, acelerados,
bem dispostos, despojados. Preferem jóias que
realcem seu corpo e chamem atenção para sua
forma física e espírito saudável.
- Noctívagos:
Boêmios, gregários, sociáveis e bem humorados,
hedonistas e gastrônomos. As jóias noturnas,
que brilham na luz negra das discotecas e dos
bares da moda são suas preferidas.
- Os Integrados:
Seguidores de moda e das tendências,
supervalorizam os aspectos simbólicos e de
afirmação social. As jóias são
indispensáveis e devem estar esteticamente
relacionadas com os últimos lançamentos da
moda. Consumidores compulsivos as jóias são
produtos de vida efêmera.
- Os New-Age:
Crenças e utopias futuristas, comportamentos
alternativos, valores compassivos. Jóias são
como uma segunda pele e remetem à noção de
permanência e longevidade.
- Os
Ultra-pragmáticos: Neologismos proposto para os
emergentes sociais que tiveram rápida ascensão
social em virtude de sua personalidade marcante e
desejo de vencer a qualquer preço. Para estes as
jóias são o testemunho material de suas
conquistas.
- Os
Extra-sensoriais: Possuem uma percepção
diferenciada do tempo e do mundo e por isto
focalizam-se nos detalhes sutis das coisas. Por
serem mais contemplativos e poéticos preferem as
jóias capazes de penetrar em sua aguçada
sensibilidade.
Estes grupos acima descritos são apenas frutos
de uma observação empírica cujo único intuito
é demonstrar a tese da multiplicidade
comportamental dos consumidores e da importância
da focalização no desenvolvimento de um
produto.
4. A dimensão
prática
Os critérios e
requerimentos utilizados no ato de projetar devem incluir
também considerações sobre os valores atribuídos ou
percebidos pelos consumidores, que podem ser:
- Valor intrínseco
(constituído pelo custo do material utilizado).
- Valor de uso (a
relação entre o custo de aquisição e o
benefício proporcionado no uso do produto).
- Valor simbólico
(consiste no valor agregado e na dimensão
cultural, que são os elementos capazes de
servirem como forma de identificação,
diferenciação ou afirmação social).
- Valor afetivo
(conformado pela carga emotiva que o produto
carrega e pelas lembranças que ele é capaz de
proporcionar).
Um bom produto
deve ainda obedecer aos seguintes requerimentos:
1. Conceito / Um produto
(qualquer que seja) deve existir primeiro no domínio das
intenções. Deve deixar transparecer sua finalidade e
razão de existir.
2. Eficiência /
Qualquer produto deve responder satisfatoriamente às
exigências de uso (satisfação, segurança,
durabilidade, conforto, cumplicidade, custo/benefício,
entre outras)
3. Simplicidade / O mais
difícil não é fazer o mais complicado. Design é mais
inteligência com menos matéria.
4. Surpresa / Um bom
produto não pode deixar ninguém indiferente. A
surpresa, a admiração e o encantamento devem ser o
elemento definitivo que justifiquem as escolhas. Um bom
produto é aquele que as pessoas nunca esquecem, são
memoráveis e eternos.
Gostaria de propor um
grande desafio: pensem em uma jóia, de tal maneira
sedutora, que seja capaz de conquistar mesmo aqueles que
não têm o hábito de comprá-las. O consumidor mais
desejado é aquele que não se deixa seduzir facilmente.
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