Composto por joias e objetos em ouro, prata e marfim, o tesouro cita de Ziwiye foi descoberto em 1947 no território iraniano às margens do lago Urmia, atualmente habitado pelos curdos - a mais numerosa etnia sem Estado do mundo.
Os objetos do tesouro fazem arqueologicamente a ponte entre as tribos habitantes desta região e as que remanesceram nas estepes da Ásia central, já que o design das joias encontradas, e também dos outros objetos, são antropomórficos, expressão artística preferida pelos citas. Apesar disso, no tesouro encontram-se objetos representantes de quatro culturas: assíria, cita, grega e a das tribos que habitavam a região do atual Irã. Datado provavelmente de 700 A.C., o tesouro evidencia esta região como ponto de cruzamento de várias rotas comerciais que promoveram o início da formação da arte iraniana, notadamente a Rota da Seda.
Atualmente distribuído entre coleções privadas e em museus, o tesouro foi encontrado por um jovem pastor de ovelhas em uma montanha perto da pequena vila de Ziwyie e parece ter sido enterrado nas muralhas de uma antiga cidadela, cujas raras ruínas ainda podem ser vistas. Construídas com grandes tijolos, as muralhas possuíam em certos trechos 7,50 metros de espessura. O edifício principal da cidadela era, ao que parece aos arqueólogos, um palácio erigido com tijolos e colunas de madeira e decorado com azulejos nas cores azul, amarelo e branco, à semelhança dos antigos palácios de Susa e Nínive, a antiga capital assíria.
Algumas joias sugerem, pelo seu design, uma “egiptização” das artes naquela região, mas que muito provávelmente não foi diretamente influenciada pelo Egito e sim por produtos vendidos por mercadores fenícios e sírios que passaram pelas rotas de comércio existentes na região. Um colar peitoral de ouro em forma de crescente, dividido em duas partes, cada uma com a representação de uma árvore (semelhante a uma palmeira) no meio e ladeadas por touros e leões alados, esfinges e grifos, é um exemplo desta arte influenciada por diferentes culturas.
O magnífico bracelete com figuras de pequenos leões no centro da peça e com cabeças de leões adultos nas extremidades, uma das quais podia ser removida para acomodaro a joia ao braço, lembra as esculturas hititas em pedra encontradas do sudoeste da Anatólia (atual Turquia) com a diferença de que, no bracelete, os planos ascendentes terminados em linhas angulares caracterizam a posição dos animais centrais e o próprio formato da mesma. Tais linhas, determinando planos polidos, atraíam os antigos usuários da joia, assim como ainda hoje, no Museu Metropolitano de Nova York. Este tipo de técnica em ourivesaria, que procura tirar o máximo do brilho do metal em contato com a luz, era novidade há quase três mil anos, e provavelmente derivou do trabalho em osso ou madeira.
Foto: Metropolitan Museum NYC.
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*Julieta
Pedrosa - carioca, arquiteta formada pela UFRJ, pós-graduada em Análise de Projetos pela FGV, e com vários cursos em áreas da joalheria, é designer de joias e professora de História da Joalheria e de Gemologia Básica em Brasília, DF, onde mora. Suas joias exibidas em cidades do Brasil( Rio de Janeiro, Belo Horizonte São Paulo e Brasília), Portugal (Lisboa e Coimbra), Espanha ( Madrid), França ( Lyon), Itália (Vicenza), Suiça( St Gallen) e China ( Hong Kong), privilegiam as linhas curvas, a fauna e a flora brasileiras.
e-mail: julietapedrosa@terra.com.br / julieta@julietapedrosa.com.br
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