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HISTÓRIA DA JOALHERIA
CELLINI: OURIVES E JOALHEIRO RENASCENTISTA
Julieta Pedrosa*
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O período
da história européia conhecido como Renascimento
abrange, em termos gerais, os séculos XV e XVI, e foi
uma época de grandes transformações, em que foram
fixados os princípios gerais que passaram a reger boa
parte do mundo que hoje conhecemos. Os reinos da Europa
converteram se em Estados - fortes, aconteceram
profundas transformações na religião, nas idéias e no
comportamento. Tudo isso se refletiu na obra de grandes
artistas. E é na Itália, berço do Renascimento, que
nasceu e viveu grande parte de sua vida Cellini, ourives
e escultor que representa bem o período renascentista
italiano, por sua insaciável busca da excelência na
arte.
Benvenuto Cellini nasceu
em 03 de novembro de 1500 em Florença e desde cedo
decidiu-se a se tornar um ourives. Aos 14 anos, começa a
estudar no atelier do pintor Filippino Lippi, onde
aprendeu a principal regra da Escola Florentina
renascentista: o desenho tinha que ser a base de
toda obra de arte. Devia servir para planejar o trabalho
em todos os mínimos detalhes antes da execução da
obra, desde os elementos decorativos até às soluções
técnicas. Ele admirava acima de tudo os desenhos de
Miguelângelo e Leonardo da Vinci, e dizia que se estes
fossem colocados juntos, lado a lado, representariam o
que de melhor se poderia fazer em arte no mundo. Cellini
almejava a excelência artística. Para usar um conceito
da sua época, deseja tornar se "
universal".
Aos 19 anos, Cellini
muda-se para Roma. São anos de grande produtividade:
medalhões em ouro talhado com cenas da mitologia grega,
um botão para o manto do Papa Clemente VII e belíssimas
moedas e jóias para a corte papal e vários nobres
romanos. Passa um curto período em Florença, devido a
desentendimentos com o Papa, mas retorna a Roma, onde
continua atender a uma rica clientela e acumular uma
considerável fortuna pessoal, que administrava
meticulosamente. Com a morte de Clemente VII, é sagrado
Papa Paulo III, que encomenda uma capa em ouro trabalhado
e pedras preciosas para o Livro de Orações, dado de
presente ao Imperador Carlos V. Apesar das encomendas na
corte papal, Cellini desentende- se em Roma novamente e
vai para Paris, tentar, em vão, entrar para o serviço
do rei Francisco I, conhecido por ser um grande mecenas.
Retorna à Roma e , em
outubro de 1538, é preso no Castelo SantAngelo sob
a alegação, provávelmente falsa, de que tinha roubado
gemas preciosas da tiara papal. Cellini consegue ser
solto, finalmente, com a intervenção do rei francês
Francisco I em novembro de 1539, que lhe oferece os
mesmos termos de trabalho que havia oferecido
anteriormente à Leonardo Da Vinci. Na França, produz
jóias diversas e esculturas.
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Apesar de
ter produzido muito como ourives durante toda a sua vida,
um dos poucos trabalhos de Cellini que chegaram até os
nossos dias foi o famoso "Saleiro",
feito para Francisco I, atualmente no Kunsthistorische
Museum, em Viena., o qual Cellini descreve assim em sua
autobiografia: " É oval na forma e tem por volta
de duas terças partes do comprimento de um braço. Toda
a peça foi trabalhada com um cinzel.. Eu retratei Netuno
e a Terra sentados em lugares opostos e com as pernas
entreunidas. As ondas da água foram lindamente
esmaltadas na sua cor natural. A Terra está representada
pela figura de uma linda mulher que segura a cornucópia
em sua mão. Ela está completamente nua, assim como
Netuno. Eu fixei a peça em uma base de ébano, a qual
decorei com quatro figuras douradas em alto relevo. Estas
quatro figuras representam a Noite, o Dia, o Anoitecer e
o Amanhecer:"
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| À serviço
de Francisco I, Cellini pode finalmente realizar sua
ambição: além de ourives, ser um mestre na arte da
escultura. Mas, apesar de trabalhar em excelentes
condições para o rei francês, foi irresistível para
Cellini retornar à sua cidade natal: queria ter chance
de provar sua excelência como escultor e conquistar
assim o direito de fazer parte dos mestres da arte
escultórica, na tradição de Donatello e Miguelângelo.
Produz então várias esculturas, algumas monumentais, a
maioria considerada obras-primas . Em 1559 escreve sua autobiografia,
intitulada " A Vida de Benvenuto Cellini" e, em
1565, começa a escrever seus dois famosos tratados:
" Tratado sobre Ourivesaria" e o " Tratado
sobre a Arte da Escultura".
É interessante se saber
que na Inglaterra de 1888, um arquiteto chamado R.
Ashbee, que fazia parte do movimento artístico chamado
"Arts & Crafts" , montou uma escola , a
"Guilda do Artesanato" , e ensinava a seus
alunos a arte do design e da ourivesaria baseado em
traduções dos tratados de Cellini.
Seus últimos anos em
Florença foram amargos e solitários e , ao morrer em
1571, deixou todas as obras encontradas em seu estúdio
para o filho do duque florentino Cosme I de Médicis,
Francisco I.
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*Julieta Pedrosa - carioca, arquiteta formada pela
UFRJ, pós-graduada em Análise de Projetos pela FGV, e
com vários cursos em áreas da joalheria, é designer de
jóias e professora de História da Joalheria e de
Gemologia básica em Brasília, DF, onde mora. Suas
jóias exibidas em cidades de Portugal, Espanha e na
França, assim como no Rio de Janeiro, São Paulo,
Brasília e Hong Kong, privilegiam as linhas curvas, a
fauna e a flora brasileiras .
e-mail: julieta@julietapedrosa.com.br
site: www.julietapedrosa.com.br
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