Os artesãos árabes
nunca se ressentiram da falta de materiais preciosos para
trabalhar. O Mar Vermelho, que bordeja a costa ocidental
da Arábia Saudita, tem sido uma fonte inesgotável de
coral. Do rosaescuro ao vermelho, assim como nas
cores branca e preta, o coral tem sido utilizado durante
séculos, não só como amuleto ou talismã, mas também
como objeto decorativo. Na costa oriental, o Golfo
Arábico oferece magníficas pérolas. Estes tesouros
são usados freqüentemente para adornar jóias em ouro.
Jazidas localizadas no sudoeste da Península também
oferecem uma grande quantidade de gemas, particularmente
as jazidas de turquesa de Makkah. A prata tem sido a matériaprima
principal dos ourives beduínos e as minas no interior na
Península provêm a maior parte da prata utilizada. A
fragilidade da prata, facilmente corroída quando exposta
ao ar e a temperaturas áridas, é a grande responsável
pelo desaparecimento de uma grande quantidade de jóias
antigas. Alguns historiadores reportam que quando uma
mulher beduína morre, suas jóias são derretidas
parte por causa do fato de que são considerados
propriedade pessoal e atribuem a este fato à
pouca quantidade de jóias em prata que chegou até
nossos dias. São raros os exemplares de jóias com mais
de 80 anos. O ouro, por outro lado, é um material muito
mais resistente. Apesar do metal não ser o mais
utilizado pelos artesão beduínos, a quantidade de
jóias em ouro antigas que chegou até nossos dias é
muito maior do que a de prata.
Várias técnicas e
processos estão envolvidos na manufatura das jóias
árabes. Para a junção de duas peças, a técnica da
fusão é a mais usada. O embossing e o repoussé
são técnicas decorativas empregadas. A granulação também é utilizada, assim
como a filigrana. Utilizando-se calor intenso e carbonato
de cobre, o artesão produz os fios para a filigrana e as
minúsculas esferas da granulação. A confecção de
correntes é outra técnica para o trabalho em prata,
metal ainda preferido pelos artesãos beduínos: as
correntes são variadas no design e na
ornamentação. Algumas correntes são feitas somente com
elos interligados, outras são elaboradas combinações
de elos e gemas, incluindo filigrana e granulação. As
técnicas de lapidação dos tradicionais joalheiros
beduínos são antigas, sendo as gemas em cabochon
as que mais se destacam.
A
joalheria beduína é significativa não somente pelas
suas qualidades estéticas, mas também pelas
influências históricas que sofreu: ao longo dos
séculos, tem incorporado técnicas e estilos de
diferentes civilizações, algumas já extintas. A
combinação de eventos históricos trouxe à Península
novas e significativas influências para a arte da
joalheria. Segundo historiadores, isto pode ser
atribuído ao cruzamento entre a migração e as trocas
comerciais havidos na região. Com a expansão de antigas
rotas comerciais, surgiram na região novos materiais
para confecção de jóias, como o âmbar, e também
novas técnicas de confecção, como a filigrana e a
granulação, estas adquiridas da antiga civilização
egípcia. Com o advento do Islamismo em 622 d.C., os
peregrinos vindos da África e da Ásia para visitar as
cidades santas contribuíram para o design
conhecido como arabesco, que é a conjunção da
caligrafia com o estilo decorativo islâmicos.
Atualmente, o design
tradicional ainda permanece popular entre as mulheres da
Península, mas a grande preferência é pelas jóias
confeccionadas em ouro: penduradas nas lojinhas dos souqs,
uma grande quantidade de jóias continua refletindo a
rica herança de antigas civilizações.
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*Julieta
Pedrosa - carioca,
arquiteta formada pela UFRJ, pós-graduada em Análise de
Projetos pela FGV, e com vários cursos em áreas da
joalheria, é designer de jóias e professora de
História da Joalheria e de Gemologia básica em
Brasília, DF, onde mora. Suas jóias exibidas em cidades
de Portugal, Espanha e na França, assim como no Rio de
Janeiro, São Paulo, Brasília e Hong Kong, privilegiam
as linhas curvas, a fauna e a flora brasileiras .
e-mail: julieta@julietapedrosa.com.br
site: www.julietapedrosa.com.br
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