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JOALHERIA SUMÉRIA


Julieta Pedrosa*


O berço da antiga arte da ourivesaria encontrava-se nas terras outrora férteis situadas entre os rios Tigre e Eufrates – ao norte da cidade de Basra, Iraque – onde floresceu a antiga civilização suméria. Era uma civilização ordenada em grandes e bem organizadas comunidades, como mini cidades-estado, às margens dos rios. Negociavam trigo, cevada e ouro, além de outros bens. Conhecida como Mesopotâmia pelos antigos gregos, a civilização suméria existiu a partir de 4.000 AC e por quase 2.000 anos. Suas cidades, Ur, Larsa, Umma e Uruk tinhas bem planejadas ruas e uma sociedade organizada. Criaram a escrita cuneiforme e escreviam poesia. Sua manifestação artística traduzia-se em diversos objetos decorativos e para adorno pessoal feitos em madeira, pedra, marfim, gemas e , mais sofisticadamente, em ouro. O Museu Britânico de Londres, o museu da Universidade da Filadélfia (EUA) e o Museu de Bagdá (este último extremamente sacrificado devido à situação de guerra e ocupação que o país enfrenta atualmente) têm no seu acervo diversos exemplares da arte suméria. Taças em ouro, elmos, braceletes, tiaras e correntes feitas em delicado trabalho de ourivesaria nos chamam à atenção quanto á exploração perfeita da maleabilidade do ouro, sua ductibilidade e resiliência.

Depois que os sumérios escreveram o primeiro capítulo da história da joalheria e da ourivesaria, suas técnica e habilidade com o ouro se espraiaram por várias civilizações antigas entre o Golfo Pérsico e o Mediterrâneo, da antiga Assíria à Babilônia, passando pela antiga Anatólia (atual Turquia), pela legendária Tróia, Egito, alcançando as civilizações minoana (em Creta) e micênica no território da Grécia atual, chegando até aos Etruscos na Itália.

Os sumérios não possuíam jazidas de ouro, mas o traziam pelo Tigre e o Eufrates do interior da Ásia, aonde o ouro aluvial vinha dos rios da Anatólia e, através do Mar Negro, do sudeste da Rússia.

O véu do mistério em relação à civilização suméria foi levantado em 1922 pelo arqueólogo Sir Leonard Woolley, durante uma expedição conjunta do Museu Britânico e da Universidade da Pensilvânia, o qual passou 11 anos escavando as tumbas reais de UR. Woolley localizou 16 tumbas reais, construídas na base de poços profundos. Em cada poço estavam fileiras de corpos, não somente da elite suméria, mas também de mulheres tocadoras de harpas e servas, colocadas ali para que a travessia além da morte fosse agradável. Estas últimas pareciam ter sido drogadas ou envenenadas, porque os corpos não apresentavam sinais de violência.

As tumbas também eram grandes repositórios da riqueza e da arte do período mais rico da história da civilização suméria. Os tesouros encontrados incluíam um elmo em ouro elegantemente confeccionado e decorado em baixo relevo (Museu de Bagdá), uma cabeça de touro folheada a ouro decorando uma caixa para harpa (Museu da Universidade de Filadélfia), e uma magnífica escultura em madeira de uma cabra amarrada a uma árvore, folheada a ouro e decorada com lápis-lázuli e madrepérola (Museu Britânico). Uma das tumbas continha o corpo da rainha Pu-Abi, e este estava decorado com 10 anéis em ouro e lápis-lazúli, e ao lado dele repousava uma taça em ouro puro. Suas servas usavam guirlandas feitas em ouro imitando as folhas de um salgueiro e várias ânforas e jarros em ouro e muitas jóias faziam parte do conjunto da tumba.

Os tesouros revelaram ao mundo a perícia dos sumérios na ourivesaria. Trabalharam com diversos tipos de ligas e confeccionavam em ouro tanto objetos ocos quanto sólidos. Usando a técnica da cera perdida, puderam fazer surgir objetos como folhas e contas e taças ou ânforas eram feitas a partir de uma folha de ouro, moldada em uma sofisticada técnica usando o calor do fogo. Podiam também transformar o ouro em finas folhas ou em fitas e a ourivesaria suméria é reconhecida pelos objetos incrivelmente sofisticados, delicados ao toque, de linhas fluentes e elegantes na sua confecção.


*Julieta Pedrosa - carioca, arquiteta formada pela UFRJ, pós-graduada em Análise de Projetos pela FGV, e com vários cursos em áreas da joalheria, é designer de jóias e professora de História da Joalheria e de Gemologia básica em Brasília, DF, onde mora. Suas jóias exibidas em cidades de Portugal, Espanha e na França, assim como no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Hong Kong, privilegiam as linhas curvas, a fauna e a flora brasileiras .
e-mail:
julieta@julietapedrosa.com.br
site:
www.julietapedrosa.com.br