Todos já conhecem a Art Clay, essa massa feita à base de prata que pode ser modelada à mão e que, depois de queimada, resulta em uma peça sólida de prata pura. Por trás deste processo aparentemente simples se escondem anos de pesquisa e desenvolvimento, justamente para que essa técnica seja simples e acessível, e que qualquer pessoa consiga produzir belas jóias com pouco tempo de aprendizado, sem precisar de meses e meses de aulas de joalheria.
Uma das desvantagens da massa de prata, contudo, é o custo. Os altos preços do metal no mercado internacional, somados ao frete desde o Japão e multiplicados por uma infinidade de impostos e taxas, fazem com que o preço final de uma jóia feita com Art Clay fique mais alto do que uma peça feita com prata comum, o que cria desvantagens para o artista que vive desse trabalho.
É nesse cenário que foi lançado no mercado americano, há dois meses, um produto que está "chacoalhando" o mundo do metal clay: a BronzClay, uma massa feita à base de bronze. Criada por Bill Struve, formado como químico e marido de uma artista que trabalha com a massa de prata, precisou de meses e centenas de receitas até que chegasse em uma fórmula que resultasse em uma peça resistente, sólida, facilmente modelável e acessível a pequenos artesãos; além de tudo isso, bem mais barata que a massa de prata.
Texturas na massa de bronze, por Hadar Jacobson
A criação de uma massa de bronze costumava travar no ponto crucial das massas de metais: a queima, ou sinterização da mesma. Como já foi tratado anteriormente nesta coluna, a metalurgia do pó é amplamente utilizada na indústria, onde existem centenas de tipos de ligas e metais utilizados da mesma maneira que a Art Clay. A diferença é que, em âmbito industrial, a sinterização das peças é feita na ausência de oxigênio, em fornos com vácuo e atmosfera controlada, muitas vezes utilizando-se de temperaturas e pressões muito altas.
Snake Chain Bracelet por Celie Fago
Para que uma massa pudesse ser acessível ao público em geral, ela deveria poder ser sinterizada com ferramentas de fácil acesso ao artista: fogão, maçarico de artesanato ou mesmo um forno de alta temperatura comum. Os metais que possibilitam a sinterização na presença de oxigênio são aqueles que não reagem com o mesmo, ou seja, os metais nobres: ouro, prata, platina...
A sinterização do cobre, muito reagente, torna-se impossível nesse termos: a queima de uma peça feita com esse metal resulta em uma pilha de pó de óxidos de cobre.
Peças experimentais de Celie Fago (note a bela pátina produzida pela queima do bronze)
A invenção de Bill Struve é mais inovadora no processo de queima do que na liga da massa de bronze em si. Struve desenvolveu um processo no qual as peças modeladas com a massa de bronze são colocadas dentro de um recipiente de aço inox, enterradas dentro de carvão ativado e lentamente aquecidas por horas até atingir 860C, temperatura na qual são queimadas por 2 a 3 horas.
O aquecimento lento faz com que o oxigênio existente dentro do forno (dentro do recipiente de aço inox) vá sendo absorvido pelo carvão ativado e criando uma atmosfera propícia para a sinterização dos metais na liga do bronze.
Pingente lentilha por Celie Fago
Desde antes do lançamento oficial pela Rio Grande, Struve encaminhou amostras para diversos artistas que vinham experimentando e oferecendo feedback sobre o material. Hoje temos algumas centenas de artistas ao redor do mundo que estão trabalhando com a BronzClay e cooperando em uma lista de discussões sobre os resultados obtidos, como uma grande conferência internacional. O que já é sabido sobre a massa de bronze:
- Ela é flexível depois de seca, o que torna o pré-acabamento com lixas mais difícil, mas facilita a modelagem em alguns tipos de projetos;
- A peça depois de queimada é extremamente resistente, e muitas vezes demonstra uma bela pátina multicolorida na superfície da peça, principalmente quando se utiliza carvão ativado de origem mineral. Essa pátina não é permanente, mas pode ser protegida com ceras.
- A massa de bronze não deve ser misturada com as massa de prata, pois os metais reagem entre si. O ideal seria queimar a prata primeiro, depois aplicar o bronze e fazer uma segunda queima;
- O encolhimento da massa de bronze fica por volta de 25%, mas as peças planas encolhem significantemente mais do que peças ocas, como anéis;
- A peça, se polida depois da queima, apresenta a coloração do bronze, meio amarelada. Caso deseje uma aparência mais avermelhada, basta deixá-la decapando em uma solução de ácido cítrico.
Pingente por Hadar Jacobson
E aqui no Brasil? Fico contente em dizer que já recebi um primeiro lote da massa de bronze e estou fazendo as minhas experiências. Em meu diminuto forno japonês, consegui achar uma lata de óleo pequena o suficiente para caber dentro do mesmo e possibilitar queimar algumas peças pequenas. Por se tratar de um material muito novo, todos os artistas que decidirem trabalhar com o material estarão, também, participando da experimentação e definindo as “regras” a serem seguidas nessa técnica.
A massa BronzClay estará disponível no site da Art Clay Brasil em breve!
(fotos: divulgação) |