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PALESTRA - CHARLES LEWTON-BRAIN



Priscilla Vassão*





Em 2007, estive com Charles Lewton-Brain na 1ª. Metal Clay World Conference, em Las Vegas, onde ele proferiu a palestra de abertura e alguns seminários como convidado especial. Além de um excelente joalheiro e artista, Lewton-Brain é um grande professor que revela muito interesse em contribuir com a difusão do conhecimento, me passando a tarefa de traduzir sua palestra para o Português e divulgá-la para a comunidade joalheira do Brasil.

Palestra de abertura da Metal Clay World Conference 2007 - Introdução 

por Charles Lewton-Brain - (Tradução: Priscilla Vassão) 

Quantos anos tem a joalheria? 

Adornar-se, o ato de produzir objetos decorativos para o corpo, é uma das mais antigas atividades humanas. As jóias são, de fato, as evidências mais antigas da atividade humana. Há dez anos, os objetos mais antigos encontrados que mostravam sinais da consciência humana eram datados de 45 mil anos; há três anos essa data foi empurrada para 70 mil anos atrás e, no ano passado, para 100 mil anos atrás. E os itens mais antigos encontrados foram contas. Esta é a idade da joalheria. É tanto tempo que eu suspeito que a joalheria esteja impregnada em nós, é muito mais biologia do que cultura.

Os arqueólogos têm teorias de que, além de ser meras evidências de consciência, o ato de se adornar e trabalhar materiais para o adorno pode na realidade ter levado ao desenvolvimento da consciência nos humanos primitivos - que o "adornar-se" é o que nos ajudou a tornar-nos humanos.

Quando eu tinha 21 anos, tive a sorte de viajar ao redor do mundo em um barco por 4 meses. Em cada lugar que desembarcávamos eu procurava joalheiros e trabalhadores de metais, me vestia polidamente, levava meu martelo de repuxo, algumas punções e peças que tinha feito. Em todo lugar que fosse eu era admitido, alimentado, hospedado, tratado como parte da família. Quando se faz jóias, não importa a maneira que você as faça, você faz parte de um clube, e todos vocês estão nesse clube global.

Os materiais: prática é prática

Existe uma história que diz que se você colocar um bom artista em uma ilha deserta com nada além de palha de aço e voltar depois de uma semana, o artista estará cercado de obras de arte feitas com palha de aço, as mais maravilhosas e intrigantes que você jamais viu.

Um dos testes tradicionais para saber se algum objeto é arte ou não é que se, à primeira vista, no instante que se vê a peça, não houver consciência de que material ou que técnica é aquela, apenas qual é o design, qual a idéia daquela peça. Se isso acontecer, aquele objeto é arte.

Se é uma boa peça, é uma boa peça.

Como um artista, um criador, eu não consigo entender ou relevar as atitudes hierárquicas que às vezes existem no ramo da joalheria, o questionamento da validade que aparece aqui e ali sobre as criações com metal clay.

O material que você usa é apenas isso, um material. Ele vem com características, meios de trabalho e abordagens não-convencionais para o seu uso. É a maneira como ele é usado ou aceito pelo público que importa. A criação de bons trabalhos leva em conta idéias, treinamento e prática. Muita prática. Dizem que 1500 horas de trabalho em qualquer coisa, pilotar um avião, fazer jóias ou carpintaria fazem de uma pessoa um expert.

Um professor meu tinha um mestre que dizia a ele que “todo pintor tem um certo número de pinturas ruins dentro dele, e tudo o que você pode fazer é continuar pintando até que a maior parte das obras ruins tenha saído”. Eu digo para os meus alunos que, para aprender alguma técnica, leva-se três tentativas para começar a entendê-la, cinco vezes para fazê-la corretamente e trinta vezes para ser competente. A prática leva à perfeição.

Metal clay é um material maravilhoso, e se você quiser convencer um joalheiro tradicional é só explicar que metal clay é metalurgia do pó de última geração, é a NASA tomando esteróides, novíssima alta tecnologia em sinterização trazida para o seu atelier. Ela oferece novas pontes e meios para pessoas fazerem jóias, novos caminhos para pessoas em um mundo complexo e caótico.

Então, quem é Charles Lewton-Brain e por que ele teria alguma coisa a dizer a você?

Eu sou um ourives, um artista, um educador. Sou chefe do programa de joalheria e metais do Alberta Collof Art and Design em Calgary, Alberta (Canadá).

Eu tenho bases sólidas no mundo das artes e no mundo da indústria. Anos atrás, aconteceu um momento crucial em minha vida e um aluno meu nasceu no ano em que eu me formei na faculdade. Eu estou nesse ramo há 34 anos e me delicio com uma das verdadeiras alegrias do mundo dos metais: você jamais saberá tudo, nunca ficará sem coisas novas para aprender, nunca deixará de cometer erros e acidentalmente descobrir novas idéias no material, na técnica, no encantamento.

Junto com Dr. Hanuman Aspler eu co-fundei o Projeto Ganoksin em 1996. Este site idealístico tem crescido até se tornar a maior fonte de informações relacionadas à joalheria na internet. Nós recebemos mais de 4 milhões de visitantes únicos por ano que vêem em média 17 páginas. Nós temos mais de 600 mil páginas de informação, 700 das quais são meus escritos que inicialmente fundaram o site. A lista Orchid é o nosso grupo de discussão via e-mail com mais de 6.500 membros ao redor do mundo, e custa ao nosso colega Ton oito horas do seu dia para editar os 50 e-mails emitidos diariamente e arquivados em nosso site. Temos acordos de parceria para publicar o conteúdo de 12 revistas incluindo Jewelry Artist, Art Jewelry, Colored Stone, MJSA Journal, Metalsmith e European Jeweller (GZ). Se você gosta do nosso trabalho, por favor, contribua com doações, pois tudo ali funciona através da boa-vontade dos usuários. Juntos também fundamos a conferência Clasp com o grupo Bell (Rio Grande), SNAG, MJSA e Brad e Debby Simon’s bench media. Este é um projeto inter-disciplinar criado para atingir os grupos da joalheria artística, a indústria e joalheiros de bancada transversalmente, de forma a compartilhar informações e cruzar conhecimento para benefícios mútuos.

Fui treinado na escola das artes e da indústria, e acredito que todo mundo é criativo e tem poder através do fazer, e através da arte.

(...) Eu passei meu tempo com os metais, descobrindo maneiras de desenhar com o material, de trabalhar rapidamente e com o comprometimento de marca e decisão que ecoa o meu antigo amor pelo desenho com tintas e penas. Dessa forma o trabalho com pátinas, as abordagens combinadas para aplicação de ouro sobre metais, a formação por dobra e meu recente trabalho em eletroformação têm a ver com desenho, trabalho rápido e, talvez, com facilidade. O metal clay compartilha desses atributos e possibilidades. 

Sou conhecido pela invenção da formação por dobra (“fold forming”), uma maneira de trabalhar a chapa de metal que envolve dobrar, trabalhar o metal e desdobrar. Estas técnicas funcionam em metal clay tanto como em chapas de metal.

E nos últimos anos tenho trabalhado com grades, como metáforas para a cultura humana e os limites que colocamos a nós mesmos. Esta série é chamada de Cage (“gaiola”) e é feita com uma solda por fusão eletrônica. Eu soldo o arame de aço inox, cubro a peça com eletroformação de cobre, uma mistura de tecnologias dos séculos XX e XIX, e depois recubro a peça com ouro 24k eletroformado sobre a mesma.

A Arte / O Fazer como metáfora para a vida

Eu costumo dizer aos meus alunos que, como criadores, como artistas, foi-nos dado um presente impressionante, que é a habilidade de externar os "bichos" de nossa cabeça em forma de objetos, de tornar reais as questões e ecos em nossas mentes. Fazendo um objeto, particularmente se estamos conscientes dos significados pessoais que aplicamos no material, na idéia contida, na cor, textura e processo, então nós conseguimos ganhar um pouquinho de controle sobre o mundo, e o objeto se torna uma série de metáforas para nós. Isto, aliás, é o que os compradores estão procurando, mesmo que seja em um objeto desenhado formalmente, onde aparentemente não há nada presente ali além de design, equilíbrio, peso, etc.

Há inúmeras abordagens para o design. Uma é o desenho formal onde você está lidando com questões de composição, simetria, assimetria e peso visual. Outra abordagem é começar com conteúdo, significado, emoção e desenhar uma peça que conte uma história, ilustre parte de uma frase, uma lenda. Isto coloca a peça em um contexto maior.

Qualquer que seja a sua abordagem, ela necessita de estudo e prática. E de erros. Eu descobri que a maioria das minhas peças são ‘peças ruins’ e algumas vezes (mais recentemente) eu tenho sorte e o trabalho é bom. E que outra pessoa vai amar a peça que é minha ‘peça ruim’. Quando eu trabalhei na Alemanha, se todos os ourives da loja concordassem que a peça era horrorosa, você podia ter certeza que ela seria um sucesso de vendas. Quem sou eu para dizer aos outros o que amar? Se alguma coisa traz alegria para alguém, por que eu deveria negá-lo a essa pessoa?

De qualquer forma, você pode praticar design, comprar livros sobre os princípios do design, rabiscar e usar colagens porque é mais rápido e mais barato para trabalhar um desenho. Dessa forma você irá se livrar daquelas ‘pinturas ruins’ mais rápido. Escolha um significado para o seu trabalho, faça-o parte de uma história, e desenhar se tornará mais fácil além de fornecer ao seu público uma ponte para o seu design, uma forma de compartilhar, e apreciar o que você está fazendo.

Sendo um artista, ou um artesão, você é um resolvedor de problemas, alguém que pega situações, materiais e limitações e então trabalha com eles para expressar pensamentos.

Meu artista favorito, Joseph Beuys, que fez algumas instalações que não eram, digamos, atraentes nos termos tradicionais, uma vez respondeu a alguém que lhe perguntou o que fazia: “Eu sou um escultor”. Quando perguntaram o que ele esculpia ele disse “Eu esculpo minha vida”. Você também pode tomar as rédeas da sua vida e guiá-la em direção ao que você quer. Aqui está uma oportunidade para você tomar o controle da sua vida e construí-la para o que você deseja da vida. Isto significa considerar objetivos para daqui a três e cinco anos, escrevê-los, experimentar com caminhos potenciais da mesma maneira que você compõe seus materiais enquanto faz arte. Um guia por escrito não te aprisiona, ao contrário, fornece um esqueleto para que se construa sobre ele ou o modifique. E, é engraçado, mas só o fato de escrever os objetivos parece fazer com que eles aconteçam, parece de alguma forma guiar as inúmeras pequenas decisões e oportunidades em direção aos seus objetivos.

Mudar a cultura: enriquecer o seu mundo

Toda vez que você mostra seu trabalho, é publicado, participa de uma exposição ou vende uma peça, você está adicionando um tijolinho no todo, contribuindo e criando um lugar mais profundo, mais rico e mais empolgante para estar. São os milhares de decisões que fazem as cidades e culturas antigas tão interessantes e, quando você participa de forma ativa, principalmente se você espalha suas idéias através da mídia, você está contribuindo para a criação de um mundo melhor.

N.A.: Aos que se interessarem pelo texto completo da palestra, que inclui informações valiosas sobre como o joalheiro pode criar a sua identidade e se projetar no mercado, disponibilizarei a tradução através do e-mail artclay@artclay.com.br. O texto original em inglês pode ser encontrado no site www.artclayworld.com/MCWC07.html, bem como a apresentação de imagens da palestra.


*Priscilla Vassão - diretora da Art Clay Brasil e instrutora sênior certificada pela Art Clay Japan. Ministra workshops e cursos introdutórios e de certificação em Art Clay. É arquiteta formada pela FAU-USP e autora de jóias.
Contato:
www.artclay.com.br - artclay@artclay.com.br

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